Ao som de ‘Pompa e Circunstância’, de Edward Elgar, que ecoava pela Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, as cortinas abriram-se lentamente. Por detrás, dispostos em escadaria, estavam cerca de 300 diplomados do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, protagonistas da Sessão Solene do XVII Dia da Graduação, que decorreu a 24 de fevereiro de 2026. O momento, dedicado aos graduados de Mestrado (Ciclo Integrado e 2.º Ciclo) e de Doutoramento (3.º Ciclo) até dezembro de 2025, marcou o culminar dos seus percursos académicos, celebrados perante familiares, amigos e docentes. O silêncio expectante da sala deu lugar a aplausos prolongados à medida que os diplomados entravam, alguns emocionados, outros trocando olhares cúmplices com quem os acompanhava nas primeiras filas.
“Muitos parabéns a todos os recém-graduados”, foram as palavras de Rogério Colaço, presidente do Técnico, dirigidas aos diplomados que, em gesto simbólico de término de um ciclo, receberam o seu diploma. Frisando “a alegria estampada no rosto” dos mesmos, lembrou que o diploma é “muito mais do que um documento”, sendo o reflexo do esforço pessoal e do apoio de quem acompanhou cada estudante sentado diante de si. Num contexto de transformação tecnológica e social, apelou a que os graduados usem o conhecimento “para construir”: construir um futuro mais igualitário, próspero e assente na responsabilidade social associada à formação. “O futuro não é um produto, depende das escolhas que fazemos”, afirmou, concluindo que “o Técnico é, e continuará a ser sempre a vossa casa”.
Em representação dos graduados do 2.º ciclo, Rita Mendes, agora mestre em Engenharia Química do Técnico, evocou o percurso iniciado em 2020, marcado pelo ensino à distância e pela incerteza. “Começámos a nossa vida universitária em isolamento, mas percebemos que o Técnico se faz em grupo”, referiu, destacando o papel dos docentes, colegas e amigos na superação dos desafios. A recém-engenheira recordou as dificuldades enfrentadas e a aprendizagem construída ao longo do percurso. “Aprendemos a lidar com a frustração e a persistir. Entrámos no Técnico em isolamento, mas saímos em união. Somos do Técnico”, concluiu, perante uma salva de palmas que percorreu a sala.
Também Manuel Sardinha, diplomado de doutoramento de Engenharia Mecânica, destacou a investigação científica como um processo coletivo e contínuo. “Celebramos acima de tudo um processo de ultrapassagem”, afirmou, defendendo que o ‘erro’ é parte essencial da construção do conhecimento. Sublinhou, no seu discurso, a importância de valorizar quem faz ciência diariamente, e reforçou o papel da investigação no desenvolvimento do país. “Se queremos uma ciência forte, é fundamental cuidar daqueles que a cuidam todos os dias”, referiu. “É preciso continuar a fazer as perguntas difíceis e acreditar no impacto que a ciência pode ter”, apelou, dirigindo-se à responsabilidade intelectual daqueles que consigo terminaram este ciclo.
Guilherme Farinha, alumni de Engenharia Mecânica do Técnico, convidado a discursar na cerimónia, partilhou o seu percurso e incentivou os diplomados a abraçar a incerteza. “Chegar hoje aqui não é trivial. O Técnico ensinou-me a lidar com o desconforto e a desenvolver resiliência”, afirmou. Dirigindo-se aos recém-graduados, apelou à curiosidade e à vontade de construir. “Tenham fome. Fome de aprender, de criar e de fazer e experimentar coisas novas”, disse, sublinhando que o diploma representa um caminho e não um ponto de chegada. “Não é a prova de que chegaram, é a prova de que não desistiram”. Destacou ainda a importância de uma comunidade ativa de antigos alunos, capaz de apoiar as novas gerações.
Na intervenção de encerramento, o reitor da Universidade de Lisboa, Luís Ferreira, dirigiu uma palavra de reconhecimento às famílias e reforçou o papel dos graduados na construção do futuro. “Hoje celebramos uma comunidade de aprendizagem”, afirmou, reforçando, mais uma vez, a importância de manter uma relação ativa com a universidade e com o Ensino Superior. Considerou que os diplomados são “herdeiros de uma tradição de valor”, com preparação científica e técnica para contribuir para a transformação da sociedade. “A excelência técnica assiste-vos, mas os valores humanistas distinguem-vos”, referiu, incentivando a um envolvimento contínuo com a academia e com a sociedade.
Entre os diplomados estavam também Tiago Brogueira, mestre em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, e Inês Castelhano, mestre em Engenharia Biomédica do Técnico. Com o diploma na mão, ambos descreveram o momento como uma combinação de ‘entusiasmo’ e ‘expectativa’. “Foram cinco anos de trabalho intenso e de crescimento. Há uma grande sensação de concretização, mas também a consciência de que começa agora uma nova etapa”, referiu Inês, destacando o desafio de entrar no mercado de trabalho após um percurso académico “exigente e estruturado”.
Para Tiago, a cerimónia trouxe sobretudo um sentimento de nostalgia e gratidão. Recordou as longas noites dedicadas a projetos de grupo, “momentos exigentes que, vistos à distância, se tornam das melhores memórias”, e sublinhou o papel das relações humanas construídas ao longo do percurso. Quanto ao futuro – entre o início da vida profissional e uma pausa para refletir antes dos próximos passos – ambos dizem levar “consigo as amizades, as aprendizagens e o sentido de comunidade” que marcaram a sua passagem pelo Técnico.
A sessão terminou com a atuação da Tuna Feminina do Instituto Superior Técnico (TFIST), que trouxe à Aula Magna momentos musicais acompanhados por palmas ritmadas, abraços e fotografias. No átrio, entre reencontros, flores e diplomas, os recém-graduados prolongaram a celebração com familiares e amigos, registando o momento em retratos que marcaram o final de um percurso e o início de uma nova etapa.
Uma jornada de seis décadas
Entre os diplomados, desceu ao palco, sob uma ovação prolongada, Carlos Pereira, que concluiu o curso de Engenharia Mecânica do Técnico aos 78 anos. “Entrei no Técnico em 1966, mas o meu percurso acabou por não ser seguido. Fui desenvolvendo outras atividades e o curso foi ficando para trás”, recordou Carlos, tendo sido colega de turma de Mariano Gago, físico e antigo ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior em Portugal.
Ao longo dos anos, conciliou o interesse pela engenharia com o desporto e a vida profissional. “Dediquei-me muito ao karaté, fui presidente da Federação Portuguesa de Karaté e participei nos Campeonatos do Mundo e da Europa. Isso acabou por me desviar de terminar o curso naquela altura”, explicou. Em 1982, encontrava-se perto da conclusão. “Estava como finalista e faltavam quatro cadeiras. Surgiu a oportunidade de fazer um curso de Engenharia de Produção na Suécia e tive de escolher. Ou agarrava aquela oportunidade ou acabava o curso”.


A decisão levou-o a seguir um percurso profissional ligado à indústria, ao desenvolvimento de sistemas e à gestão de empresas. Trabalhou em projetos para várias organizações e, mais tarde, assumiu a direção industrial de um projeto de investimento no Brasil. “Em 1995 fui para o Brasil e montei uma fábrica de raiz, modernizando toda a sua linha de produção. Acabei por ficar lá mais de vinte anos”, afirmou, regressando a Portugal em 2017, após enfrentar alguns problemas de saúde.
Já recuperado, decidiu retomar o caminho iniciado décadas antes. “Fui ao Técnico perceber o que podia fazer. Deram-me equivalências e disseram-me que tinha de concluir algumas cadeiras e a tese de mestrado”, retratou Carlos. “Achei interessante voltar a estudar e aprender coisas novas”. Durante este período, destacou as diferenças em relação ao ensino que conhecera no passado. “O Técnico está completamente diferente. Antes era tudo muito teórico. Agora há laboratórios, há contacto com a prática e com o mundo digital”, destacou com um sorriso no rosto. “Foi uma grande aprendizagem a todos os níveis”.
A dissertação que desenvolveu centrou-se no transvase de água do Guadiana para o sudoeste alentejano e o Barlavento-Algarvio, tema que considera particularmente relevante para o futuro do país. “Não fiz a tese só para cumprir créditos. Quero trabalhar para levar esta ideia à prática e já estou à procura de contactos e investidores. Vou-me mexer politicamente”, reafirmou. Sobre o futuro, deixa um objetivo claro: “Enquanto tiver saúde, quero continuar a trabalhar e a desenvolver este projeto”.