Corria o ano de 1856 quando a Andorinha, a primeira locomotiva portuguesa, se fazia à estrada – ou melhor, aos carris – pela primeira vez. Volvidos 170 anos (e no mesmo ano em que se assinala também o 170.º aniversário dos caminhos de ferro portugueses), uma sua homónima surge das mãos e mentes de estudantes do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa. Totalmente elétrico, o veículo foi apresentado ao público a 29 de setembro no Salão Nobre do campus Alameda, naquele que foi o primeiro evento de rollout do ISTrain, núcleo de estudantes do Técnico responsável pela sua conceção.
Perto do final da cerimónia, já com todos os ocupantes do Salão Nobre de pé, acotovelando-se para conseguirem um ângulo de visão melhor por entre a multidão, o véu que cobria a locomotiva foi levantado, deixando finalmente ver a composição de 320 quilogramas, com construção maioritariamente em alumínio. Munido de um pack de duas baterias, o veículo tem autonomia para circular autonomamente – sem maquinista nem passageiros – com uma carga de cerca de duas toneladas a 15 km/h durante três horas. Está também equipado com um sistema de travagem regenerativa, que lhe permite recuperar energia para as baterias durante períodos de diminuição de velocidade.
Para Rogério Colaço, “estes finais de tarde no Salão Nobre são sempre uma alegria”, marcando novas conquistas dos estudantes, reveladoras de uma “vontade indomável de construir qualquer coisa nova e que não existia antes”. Com efeito, o presidente do Técnico defendeu que “os núcleos de estudantes do Técnico não são um elemento acessório; são uma parte importante daquilo que somos e da formação e vivência que queremos proporcionar aos nossos estudantes”.
Num projeto desta natureza, as diferentes unidades curriculares deixam de estar separadas. “A mecânica tem de funcionar com a eletrónica, o desempenho energético tem de ser tido em conta e a segurança tem de estar presente em cada passo”, explicou o docente. É uma experiência que não substitui a formação científica em ambiente de sala de aula, “mas dá-lhe aplicação, contexto e uma responsabilidade concreta”, acrescentou.
Ainda antes do evento de rollout, a Andorinha já somava distinções internacionais – entre 25 e 28 de junho, na IMechE Railway Challenge do Reino Unido, o protótipo conquistou cinco prémios, naquela que foi a estreia do ISTrain na competição (tornando-se o primeiro grupo de estudantes da Península Ibérica a participar).
“Modéstia à parte, foi um brilharete”, confessou Aliya Ibrahimo na sua intervenção, provocando risos na audiência. Para a Team Leader cessante, o núcleo “é um sonho de uma rede de pessoas unidas pela ambição de construir o futuro da ferrovia; um sonho que passou de sonhador em sonhador até se tornar realidade; um sonho tão grande que criou novos sonhos noutras faculdades”.
Futuro da ferrovia nacional também esteve em discussão
O alinhamento do programa incluiu dois momentos de mesa redonda, um deles moderado por Carlos Cipriano, Diogo Ferreira Nunes e Ruben Martins, jornalistas do Público responsáveis pelo podcast Sobre Carris, que aproveitaram a ocasião para gravar um episódio no Técnico.
Hugo Magalhães, professor do Técnico que lançou o desafio inicial para a criação do ISTrain (e que, por isso, é descrito pelos estudantes como o ‘mentor’ da iniciativa), destacou que, a par deste, o núcleo também desenvolveu um projeto inserido na modalidade CAPSTONE, uma outra locomotiva movida a energia solar, de seu nome Helianto. Virgínia Infante, também docente da Escola e presidente do Instituto de Engenharia Mecânica (idMEC), centro de investigação associado ao Técnico, defendeu que “a comunicação é essencial” para atrair mais pessoas para a indústria ferroviária, em particular os jovens. Segundo a investigadora, “as empresas utilizam estes núcleos para se aproximarem das unidades de investigação”, o que é “uma grande mais valia” para ambas as partes.
Para o presidente da Plataforma Ferroviária Portuguesa, Paulo Duarte, a prioridade é passar da “ferrovia da ferrugem” para a “ferrovia altamente tecnológica”, dando exemplos de tecnologias como o sistema MagLev, de levitação magnética, que permite aos comboios viajar em segurança a várias centenas de quilómetros por hora, realidade que já se observa em países como a China e o Japão. “É preciso inovação, e este projeto ISTrain é disso um exemplo”, elencou, opinião partilhada pelo jornalista Carlos Cipriano. Receoso que a maior parte dos estudantes de engenharia presentes vão trabalhar para a indústria ferroviária no estrangeiro, o profissional da comunicação fica, no entanto, “mais otimista graças ao excelente trabalho que vocês [estudantes do ISTrain] têm feito”.
Tendo sido Team Leader mulher, Aliya Ibrahimo comentou que isso poderá servir “para inspirar mais mulheres a sentirem-se à vontade nestes lugares”, algo que foi sublinhado por Carlos Cipriano, que lamentou que esta ainda seja uma indústria com um viés masculino. A aluna está a terminar o Mestrado em Engenharia Mecânica do Técnico, mas já tem a certeza que quer enveredar na indústria ferroviária, e em território nacional. “É agora que vai acontecer – temos de estar cá e produzir para cá; não me fazia sentido ir para nenhum outro lado”, frisou.
Assumindo, após Aliya, as funções de Team Leader da ISTrain, Manuel Barreiras lançou um repto aos presentes para o ano letivo que se inicia. “Se procuram um projeto de engenharia desafiador, deviam entrar no ISTrain: aprende-se a trabalhar em equipa e obtém-se muitas competências técnicas”, garantiu, partilhando ainda que “o interesse na ferrovia tem crescido dentro de [si]” cada vez mais.
Um alumnus do Técnico ligado ao setor ferroviário teve também um momento para uma intervenção – Sérgio Tomázio, diretor de inovação na Siemens Mobility, assinalou a coragem dos estudantes do ISTrain em “predispor-se a fazer algo que ninguém sabia como era feito” e ainda o facto de que esta foi “a primeira vez que algo assim é feito em Portugal”.
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