Parece que o relógio que marca 10 minutos, projetado na tela do Salão Nobre do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, nunca mais arranca a sua contagem decrescente. O burburinho que emana da plateia denuncia esta ansiedade, adensada pela figura no palco, coberta por um manto vermelho a despertar a curiosidade dos presentes. Mesmo sem ter ligado nenhum dos seus quatro motores, o novo carro da Fórmula Student Técnico (FST Lisboa) já é a presença mais ruidosa da sala.
Perante uma sala totalmente lotada – mesmo com quatro grandes manchas de cadeiras, há pessoas de pé acumulando-se nas laterais e ao fundo do Salão Nobre, na ânsia de ver os frutos de vários meses de trabalho – na tarde de 9 de junho. Após 25 anos de existência deste Núcleo de Estudantes do Técnico, a FST Lisboa está prestes a lançar o seu 15.º protótipo, o FST15, num evento de rollout.
“Se há coisa que distingue o Técnico de todas as instituições de ensino superior de engenharia é a dinâmica dos nossos estudantes”, defendeu Rogério Colaço. Para o presidente do Técnico, “a FST é a grande pioneira em termos das atividades extracurriculares dos nossos estudantes”, tendo um “efeito multiplicador” no surgimento de muitos outros núcleos de prototipagem “que constroem desde satélites e carros de hidrogénio a foguetões, drones e motas – internacionalmente, não conheço nenhum outro caso com esta dinâmica”.
A formação da FST Lisboa é constituída este ano por 68 estudantes do Técnico das áreas de engenharia aeroespacial, mecânica, eletrotécnica e informática, aos quais se juntam estudantes de outras áreas, como economia e gestão industrial. A equipa foi criada em 2001 com o objetivo de aplicar os conhecimentos teóricos adquiridos nas aulas.
Pedro Amaral, vice-presidente do Técnico para a Interface Empresarial, Inovação e Empreendedorismo, não escondeu a surpresa logo no início da sua intervenção no evento de rollout. “Uau. Nem nas nossas melhores reuniões temos o Salão Nobre assim cheio, e isso é um sinal”, afirmou, descrevendo os estudantes como “sempre absolutamente fantásticos no trabalho que desempenham, nas empresas que criam, nas posições de gestão que têm”. O docente descreveu a experiência de assistir a um evento em que a FST Lisboa participou em Hockenheimring, na Alemanha, onde compareceram 4 a 5 mil pessoas, “em representação do Técnico, de Portugal”. Em nome da “amizade, do espírito de equipa e da alegria” que sentiu nesse certame, recordou um prémio para a equipa que, devido a desvios para fora da pista, mais barreiras laterais conseguira destruir.
O orgulho dos estudantes pelo seu trabalho é palpável durante o evento, seja pelos frequentes aplausos dos membros da FST Lisboa na plateia, seja pelas descrições detalhadas das especificidades técnicas do veículo, melhorias em relação ao protótipo anterior. Entre as principais evoluções, conta-se uma nova bateria desenvolvida internamente pela equipa e um novo sistema de travagem autónoma, bem como uma solução de refrigeração otimizada para suportar a nova arquitetura elétrica e sessões de teste mais longas.
A componente aerodinâmica foi igualmente revista, com o novo pacote a incluir sidepods, estruturas aerodinâmicas adicionais e uma nova asa traseira. Na área da eletrónica, a equipa desenvolveu novos sensores, sistemas de distribuição de potência atualizados, aquisição de dados e maior capacidade de diagnóstico, tendo ainda a redução de massa do protótipo como outro dos objetivos transversais ao desenvolvimento do FST15 – o veículo totaliza cerca de 200 quilogramas e, sem condutor, consegue atingir autonomamente os 100 km/h em menos de dois segundos.
Celebrando uma parceria com a FST Lisboa desde 2023, a Vinci Energies Portugal esteve representada no evento por Fernando Rodrigues. Para o Managing Director do patrocinador, “esta é uma oportunidade extraordinária para estar próximo do Técnico, com toda a sua história e empenho”. A possibilidade de “estar próximo desta base de talento” na figura da FST Lisboa, é, para a Vinci, “um privilégio”, e, independentemente dos resultados em competições futuras, “chegar aqui já é um resultado extraordinário”.
À frente do Central, a habitual volta de consagração

Minutos mais tarde, trazido em braços por uma dezena de membros da equipa, o FST15 prepara a já costumeira demonstração em frente à fachada principal do Pavilhão Central, no topo da Alameda. Como é hábito nestas circunstâncias, a multidão junta-se nas escadas, ansiosa – o estacionamento, totalmente livre de carros para além do protótipo, ensaia uma pista onde o veículo irá demonstrar o seu desempenho.
Alexandre Gaspar tem interesse redobrado no resultado da demonstração – faz parte da equipa de driver interface da FST Lisboa e quer mostrar em que culminaram “todas as horas de trabalho” investidas. O aluno de terceiro ano da Licenciatura em Engenharia Mecânica partilha que “desde o secundário que sempre ouvi[u] falar do Técnico e da FST Lisboa”, tanto assim que “pode dizer-se que entr[ou] aqui em grande parte por causa d[este núcleo]”.
“Não somos de cá [de Lisboa], somos do Fundão, mas, das poucas vezes que ele vai a casa, passa dias e noites agarrado ao computador a trabalhar na FST Lisboa” – são palavras de João e Carla, referindo-se ao filho, Rafael Leal, outro aluno de Engenharia Mecânica e membro do núcleo. “E vale a pena; ele veio para o Técnico já com a intenção de juntar-se à FST”, partilha João. “Entrar no mundo da Fórmula 1 é um sonho muito difícil e ele está a trabalhar para ele”, acrescenta, com Carla a garantir que o envolvimento em núcleos como este pode “abrir muitas portas” na vida profissional.
Está tudo pronto, entretanto – o piloto está a postos, a pista está desimpedida, os telemóveis têm a câmara apontada. O protótipo arranca velozmente, desta vez para serpentear pelo circuito improvisado no campus Alameda do Técnico, mas daí a algumas semanas fá-lo-á também em Castelo Branco, Barcelona (Espanha) e Hockenheim (Alemanha), em competições de Fórmula Student a que o núcleo já está bem habituado – a FST Lisboa ocupa, desde 2025, a 8.ª posição entre 62 equipas na categoria Driverless (Autónomo) e a 15.ª posição entre 480 na categoria Electric Vehicle (Veículo Elétrico), no Formula Student World Ranking.
A Formula Student é considerada uma das maiores competições universitárias de engenharia do mundo. Ao contrário de uma competição automóvel tradicional, a vitória não depende apenas da velocidade em pista. As equipas são avaliadas pelo pacote global do projeto, incluindo conceção, construção, desempenho, inovação, planeamento financeiro, capacidade de apresentação e visão de negócio. Na prática, cada equipa assume o papel de um fabricante que desenvolve um protótipo a ser avaliado para produção.