Campus e Comunidade

Azoto líquido, bio-óleos e CO₂: um dia nos Laboratórios Abertos de Química do Técnico

Entre experiências e demonstrações, o Departamento de Engenharia Química do Técnico abriu portas a estudantes do ensino secundário para mostrar como a investigação responde a desafios energéticos, ambientais e industriais.

Uma nuvem densa e branca espalha-se rapidamente pela sala, deslizando sobre as bancadas e envolvendo os primeiros curiosos que se aproximam. O azoto líquido, a -196 °C, reage ao contacto com o ar ambiente e cria um efeito imediato que prende a atenção de quem entra. Há um breve silêncio, seguido de exclamações e de passos cautelosos para trás. “Parece água!”, comenta um participante, inclinando-se ligeiramente para observar melhor, enquanto o vapor frio se dissipa e revela novamente os recipientes metálicos.

A cena marca o início de mais uma visita à 21.ª edição dos Laboratórios Abertos do Departamento de Engenharia Química do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, organizada em colaboração com o Núcleo de Engenharia Química do Técnico (NEQIST) e dirigida a estudantes do ensino secundário. Ao longo da tarde, vários grupos percorreram diferentes espaços laboratoriais do Técnico, onde conceitos científicos se materializaram em experiências e demonstrações.

Numa sala contígua, a partir do espaço onde decorria a demonstração com azoto líquido, a luz é reduzida e a atenção centra-se noutra propriedade da matéria. Sob iluminação específica, documentos e notas revelam detalhes invisíveis a olho nu, numa sequência de padrões que surgem e desaparecem conforme a posição da fonte luminosa. “A fluorescência acontece quando certos compostos absorvem luz e a reemitem noutro comprimento de onda”, explica Bárbara Graça, estudante de Engenharia Química do Técnico, exibindo diferentes exemplos. “É por isso que esta técnica é usada em elementos de segurança, como documentos de identidade ou notas, para verificar a sua autenticidade”. Os participantes aproximam-se, movem a fonte de luz e observam a resposta imediata dos materiais, onde linhas e marcas se tornam visíveis apenas sob aquelas condições.

À entrada do edifício de Química, na Torre Sul do campus Alameda, os grupos distribuem-se entre várias bancadas experimentais. O percurso faz-se entre paragens curtas e explicações diretas, onde cada experiência introduz uma aplicação prática da Engenharia Química. “Dá-nos uma ideia mais concreta das opções que podemos seguir”, afirma Rafael, estudante do 11.º ano, após circular pelas diferentes atividades. Ao seu lado, Sofia, colega de turma, destaca a dimensão do contacto direto com o espaço universitário num ano marcado pelos exames nacionais. “Ajuda-nos a perceber melhor o que cada área envolve”, começou por dizer. “Uma coisa é estudar os conteúdos, outra é vê-los aqui aplicados e perceber o que se faz no dia-a- dia”.

“No Técnico há espaço para aprender, fazer perguntas e desenvolver competências”

A tarde começou com uma sessão dedicada aos desafios atuais da área. Na palestra “Mandado de captura ao CO₂ [dióxido de carbono]”, Ana Sofia Amorim, alumna do Técnico e atual investigadora no C5Lab, laboratório colaborativo que articula diferentes infraestruturas e competências na área da captura e valorização de carbono, destacou o impacto da indústria cimenteira, responsável por cerca de 7% a 8% das emissões globais de dióxido de carbono. “Estamos a trabalhar em soluções que passam pela captura e utilização do CO₂, transformando-o em produtos com valor”, explicou, apontando para abordagens que procuram aumentar a eficiência dos processos e reduzir o impacto ambiental.

Num contexto em que a União Europeia estabeleceu a meta de neutralidade carbónica até 2050, a utilização do dióxido de carbono como matéria-prima surge como uma via complementar. “Não se trata apenas de capturar CO₂, mas de o integrar em novos ciclos produtivos, aumentando a conversão e a seletividade dos processos”, acrescentou Ana Sofia Amorim, sublinhando a importância da valorização do carbono capturado enquanto recurso para a transição energética e para a promoção de uma economia circular.

“O contacto com a oferta formativa e com a aplicação prática dos conteúdos é muito positivo”, refere Jesuina Pereira, professora da Escola Secundária de Camões, em Lisboa. “Permite aos alunos perceberem as potencialidades do Ensino Superior e a transversalidade de diferentes áreas”, menciona, enquanto observa uma atividade dedicada à identificação da origem de diferentes polímeros à sua aplicação no quotidiano. “Há uma proximidade que torna este ambiente mais acessível e menos abstrato”.

De regresso aos laboratórios, a sustentabilidade surge associada a novos materiais. Numa das bancadas, resíduos são apresentados como ponto de partida para processos químicos que os transformam em bio-óleos. “Resíduos urbanos ou alimentares podem ser convertidos em misturas complexas, conhecidas como bio-óleos, através de processos como a pirólise ou a liquefação direta”, explica Dinis Paulino, também estudante de Engenharia Química no Técnico. “Estes materiais podem ser usados como alternativas mais sustentáveis aos combustíveis fósseis, contribuindo para reduzir emissões e valorizar recursos que, de outra forma, seriam descartados”. 

“A química está presente em todos estes processos, desde a energia aos materiais”, refere Carmen Bacariza, professora do Técnico e investigadora do Centro de Química Estrutural (CQE), enquanto acompanha um grupo entre os diferentes espaços. “O objetivo passa por pôr os estudantes do ensino secundário em contacto com o ambiente do Técnico, com os laboratórios e com quem aqui trabalha diariamente”.

Ao longo do percurso, a docente destaca ainda a diversidade de oportunidades disponíveis na Escola, desde a formação académica às atividades promovidas por núcleos de estudantes e unidades de investigação. “Há uma forte ligação entre ensino e investigação, e isso reflete-se na forma como os estudantes participam em projetos desde cedo”, acrescenta.

À saída, os grupos dispersam lentamente pelos corredores. Entre demonstrações, conceitos e aplicações práticas, ficou o contacto direto com o ambiente laboratorial e com uma área onde a investigação e a formação se cruzam com desafios atuais da sociedade. “No Técnico há espaço para aprender, fazer perguntas e desenvolver competências”, apresentou Carmen Bacariza, sintetizando a iniciativa.

Entre os dias 27 e 30 de abril e 4 de maio, a iniciativa reuniu cerca de 850 alunos do ensino secundário, acompanhados por aproximadamente 50 professores, que participaram num programa organizado em 10 palestras distintas, asseguradas por vários intervenientes, e mais de 10 visitas aos espaços laboratoriais do Técnico, distribuídas ao longo das várias sessões.

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