Antes de haver canos, torneiras ou estações de tratamento, há uma gota. Suspensa numa nuvem, cai, desliza por uma folha, infiltra-se no solo ou corre até um rio. Foi a partir deste percurso que Filipa Ferreira, docente do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, e investigadora no Centro de Investigação e Inovação em Engenharia Civil para a Sustentabilidade (CERIS), conduziu a 5.ª sessão do ciclo “Explica-me como se tivesse 5 anos”, realizada a 6 de fevereiro de 2026, no Centro de Congressos do campus Alameda do Técnico.
“Sabiam que há cidades onde cada gota conta… e outras onde todas as gotas se perdem?”. A pergunta lançou o tema da sessão e enquadrou a primeira ideia-chave: a água cobre a maior parte da superfície do planeta e compõe grande parte do corpo humano, mas a fração de água doce disponível para consumo é limitada. “Gerir a água é garantir que esta parte limitada chega às pessoas com qualidade e volta à natureza com o menor impacto possível”, começou por explicar a investigadora.
Do ciclo natural – evaporação, formação de nuvens, condensação e chuva – a narrativa avançou para o momento em que a gota entra na cidade. “Captamos a água na natureza, tratamo-la para que seja segura, armazenamo-la e distribuímo-la por tubagens até às casas”, descreveu. Depois de utilizada, a água transporta resíduos e poluentes. “Não a podemos devolver assim ao ambiente. É por isso que existem as estações de tratamento de águas residuais [tema também abordado na sessão de dezembro “O que acontece à água da sanita?], onde a água é tratada antes de regressar aos rios ou ao mar, podendo voltar a ser reaproveitada em outros contextos”.
A partir daqui, o contraste entre diferentes realidades urbanas ganhou forma. Há cidades onde cada gota conta… redes são reparadas para evitar fugas, a água da chuva é recolhida, a reutilização é planeada e, em maior escala, constroem-se barragens e reservatórios. Noutras, todas as gotas se perdem… o acesso à água potável não é garantido, as infraestruturas são insuficientes ou degradadas e há populações que percorrem longas distâncias para obter água. “Ter água boa é um privilégio. Temos de saber estimá-la e preservá-la”, sublinhou a investigadora.
A engenharia civil surgiu então com uma dimensão aplicada ao percurso descrito. “Os engenheiros civis não trabalham só em casas, pontes ou estradas. Também projetam redes de água, sistemas de drenagem e estações de tratamento”, afirmou a investigadora, descrevendo o trabalho que liga projeto, obra e exploração de infraestruturas. Filipa Ferreira explicou ainda que na sua unidade de investigação, o CERIS, desenvolvem-se “estudos para melhorar tecnologias de tratamento de água e esgotos, aumentar a eficiência das redes, adaptar sistemas às alterações climáticas e estudar novas formas seguras de reutilização”.
“E se houver uma seca?”, ouviu-se da plateia. A questão conduziu novamente a conversa para a gestão da água e a importância do seu armazenamento, criando reservas, protegendo aquíferos e, sobretudo, poupando. Exemplos de grandes infraestruturas de drenagem urbana, em Lisboa, ilustraram a escala a que a engenharia civil pode atuar, incluindo projetos subterrâneos de grande dimensão. “As ideias são todas um bocadinho malucas”, brincou Filipa Ferreira confrontada com a ideia do ‘cientista maluco’. “Muitas soluções começam por ideias que parecem improváveis. Investigar é testar caminhos para resolver problemas que ainda não têm resposta”, concluiu.
“Duches mais curtos”, “fechar a torneira enquanto se escova os dentes”, “reaproveitar água da chuva para regar” foram algumas das respostas que surgiram na sala à pergunta ‘o que cada um pode fazer para poupar água?’, associando gestos do quotidiano ao percurso urbano da água. “Cada gota tem um caminho. O que fazemos em casa também faz parte desse caminho”, afirmou Filipa Ferreira.
Quando a sessão terminou, a gota já tinha passado por nuvens, rios, estações de tratamento, canos subterrâneos e cadernos abertos sobre as mesas. Ficou desenhada em folhas, sublinhada em apontamentos e transformada em “super poderes” colados em autocolantes, pronta para voltar a cair, outra vez, noutro lugar.
A iniciativa “Explica-me como se tivesse 5 anos”, dirigida a crianças do 1.º ciclo, tem como objetivo aproximar a investigação científica da sociedade, promovendo o contacto direto entre cientistas e crianças, e integra um ciclo composto pelas seguintes sessões:
- 18 de março de 2026, 10h – “De onde vêm as coisas com que fazemos as coisas?” – Amélia Dionísio (CERENA)
- 29 de abril de 2026, 10h – “Universo – Infinitamente grande ou Infinitamente pequeno?” – Pedro Abreu (LIP)
- 13 de maio de 2026, 10h – “Porque é que as bolas de sabão são redondas?” – Hugo Tavares (CAMGSD)
Sessões passadas:
8 de outubro de 2025, 10h – “Como funciona um satélite?” – João Paulo Monteiro (ISR-Lisboa)
Reportagem: “Mas como é que funciona um satélite?”: Técnico abriu portas à curiosidade dos mais pequenos
12 de novembro de 2025, 10h – “Como funciona um laboratório que pode viajar na palma da mão?” – Vânia Silvério (INESC-MN)
Reportagem: “Um laboratório na palma da mão: crianças descobrem a ciência em microescala no Técnico”
10 de dezembro de 2025, 10h – “O que acontece à água da sanita?” – Ricardo Santos (LAIST)
Reportagem: Crianças exploram o percurso invisível da água na terceira sessão do ‘Explica-me como se tivesse 5 anos’
4 de janeiro de 2026, 10h – “Para que serve a radiação?” – Joana Madureira (C2TN)