O desenvolvimento de sistemas de Inteligência Artificial (IA) em interação com o mundo físico coloca novos desafios éticos, jurídicos e sociais que exigem respostas multidisciplinares. Esta foi a premissa central da sessão “Ética e Responsabilidade Social da IA”, realizada a 13 de fevereiro de 2026, no Técnico Innovation Center powered by Fidelidade, que encerrou o ciclo de conversas “A Inteligência artificial em interação no mundo físico”, organizado pelo Instituto de Sistemas e Robótica (ISR-Lisboa/LARSyS), em colaboração com o Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa.
O encontro reuniu especialistas de diferentes áreas para refletir sobre os princípios que devem orientar o desenvolvimento destes sistemas, com foco no “bem comum e na promoção de valores humanos fundamentais”. O painel contou com a participação de Filipa Correia, docente do Técnico e investigadora do Instituto de Tecnologias Interativas (ITI/LARSyS); Luís Barreto Xavier, da Universidade Católica Portuguesa; Porfírio Silva, investigador em Filosofia das Ciências e colaborador do ISR-Lisboa; e Paulo Mota Pinto, da Universidade de Coimbra. A moderação esteve a cargo de Hugo Nicolau, docente do Técnico e também investigador do ITI/LARSyS.
Ao longo da sessão, foi sublinhada a importância de integrar a reflexão ética desde as fases iniciais da investigação. Filipa Correia destacou o papel das comissões de ética na validação dos projetos científicos e a necessidade de envolver diferentes níveis de responsabilidade. “O parecer ético não pode ser centrado apenas na nossa comunidade. A responsabilidade deve ser partilhada por todos os que trabalham e investem nesta área”, referiu, apontando também a implementação gradual destes mecanismos em Portugal.
“Na investigação experimental há uma preocupação com o consentimento informado e com a transparência dos processos. Já em contextos comerciais, embora existam ressalvas éticas, o avanço tecnológico é mais rápido e nem sempre essa passagem para a sociedade é linear”, defendendo uma reflexão contínua sobre os modelos de utilização e os impactos sociais mais amplos. “Questionar é o ponto de partida para resolver muitos problemas”.
Do ponto de vista jurídico e regulatório, Luís Barreto Xavier abordou o enquadramento europeu da Inteligência Artificial, destacando o regulamento aprovado em 2024 pela União Europeia, ainda em fase de aplicação. Segundo o especialista, existem “sistemas considerados de risco elevado”, como veículos autónomos, brinquedos inteligentes ou dispositivos médicos, que exigem camadas adicionais de supervisão. “Há falta de consenso. Para alguns, esta regulação pode colocar em causa a inovação e a economia, mas o desenvolvimento destes sistemas deve ser premiado por critérios éticos e jurídicos”, afirmou. Destacou ainda a urgência de promover a literacia em Inteligência Artificial e de desenvolver mecanismos de proteção para os cidadãos mais vulneráveis.
A discussão integrou também uma perspetiva filosófica e social sobre o papel da tecnologia nas relações humanas. Para Porfírio Silva, a ética deve ser encarada numa “perspetiva construtiva e dialogada”, orientada para o bem comum e sustentada na observação contínua das consequências da tecnologia. “Estamos perante um desafio que não é apenas tecnológico. Exige um quadro de relacionamento entre humanos em que assumimos a responsabilidade pelas escolhas que fazemos”, referiu. O especialista alertou para a opacidade de muitos sistemas e para a necessidade de desenvolver mecanismos mais exigentes de controlo e análise das circunstâncias em que são utilizados.
Já Paulo Mota Pinto destacou as questões jurídicas associadas à opacidade destes sistemas e à multiplicidade de intervenientes no seu desenvolvimento. “A abordagem baseada no risco é necessária, mas não resolve todas as questões, nomeadamente a imputação de responsabilidades”, mencionou. O jurista defendeu uma abordagem preventiva, sem recurso à proibição generalizada, incluindo no Ensino Superior: “Não devemos ter receio da IA, mas devemos estar atentos aos seus riscos. É possível e necessário trabalhar para uma sociedade mais justa”.
Na moderação do debate, Hugo Nicolau sublinhou que a reflexão ética exige escolhas conscientes sobre o futuro tecnológico. “Pensar em ética é menos palpável, mas é fundamental para decidir o que queremos construir”, afirmou. O investigador destacou ainda os desafios associados a cenários como a utilização de robôs sociais em contextos de cuidado, questionando a linha entre apoio e manipulação e a necessidade de garantir transparência nos processos de Inteligência Artificial.
O ciclo de conversas “A Inteligência Artificial em interação no mundo físico” reuniu, ao longo de 6 sessões, investigadores, especialistas e decisores para discutir os impactos da IA em diferentes áreas da sua aplicação. A sessão de encerramento reforçou o papel do Técnico na promoção de uma abordagem multidisciplinar, envolvendo ciência, engenharia, direito e filosofia, com o objetivo de “contribuir para o desenvolvimento responsável da tecnologia e para a formação de profissionais e cidadãos preparados para lidar com os desafios da Inteligência Artificial”, resumiu Filipa Correia em mensagem final.
Sessões passadas:
- Papel da Inteligência Artificial no quotidiano esteve em destaque no fórum inaugural do ciclo de conversas acolhido pelo Técnico
- Técnico promoveu debate sobre Inteligência Artificial na Indústria
- Sinais, luzes e dados em movimento: Técnico debateu inteligência artificial no espaço urbano
- Inteligência artificial aplicada à energia, água, ambiente e agricultura esteve em debate no Técnico
- Inteligência Artificial na saúde: inovação, regulação e personalização em debate no Técnico