Campus e Comunidade

Crianças exploram o percurso invisível da água na terceira sessão do ‘Explica-me como se tivesse 5 anos’

Sessão no Técnico guiou os mais novos através do trajeto da água residual, desde a sanita até ao tratamento e reutilização, mostrando a importância do saneamento e dos comportamentos individuais.

“Na sanita só deve ir papel higiénico”, foi a frase mais ouvida na 3.ª sessão  do “Explica-me como se tivesse 5 anos”, realizada a 10 de dezembro de 2025 no Salão Nobre do campus Alameda do Instituto Superior Técnico. A recomendação, repetida ao longo da atividade, serviu de ponto de partida para uma viagem conduzida por Ricardo Santos, investigador do Departamento de Engenharia e Ciências Nucleares (DECN) do Instituto Superior Técnico, Instituto de Investigação e Inovação em Engenharia Civil para a Sustentabilidade (CERIS) e diretor-adjunto do Laboratório de Análises do Instituto Superior Técnico, que desafiou o público mais jovem a descobrir o percurso invisível da água depois de se carregar no autoclismo.

Guiando as crianças do objeto quotidiano para o sistema subterrâneo de tubagens que recebe a água residual das casas, Ricardo Santos descreveu “uma viagem que começa no autoclismo”, explicando que os canos aumentam de dimensão à medida que recolhem fluxos de várias casas e conduzem toda a água até um ponto comum. Foi neste movimento contínuo pelo subsolo que a narrativa encontrou o seu destino seguinte.

A “fábrica da água”, nome dado à Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR), surgiu como o destino natural deste trajeto. O investigador explicou que, ao chegar à “fábrica”, a água passa por processos que removem primeiro os resíduos maiores e depois as partículas mais finas, como areias e lamas. “Separamos o que é sólido do que é líquido”, descreveu. Seguem-se os tratamentos biológicos, a decantação secundária, a filtração e, por fim, a desinfeção, etapas que podem prolongar-se por algumas horas ou dias, consoante o volume de água e a dimensão da instalação, até a “água ficar limpa”. O investigador sublinhou ainda que se trata de um “tratamento tipo”: a ordem e a combinação dos processos podem variar consoante o funcionamento específico de cada ETAR, mas o objetivo final mantém-se – “garantir que a água possa ser reutilizada de forma segura”.

Para sublinhar a relevância global do saneamento, o investigador apresentou dados das Nações Unidas, mencionando que “427 milhões de crianças não têm acesso a casas de banho nas escolas”. Recordou ainda o Dia Mundial da Casa de Banho, assinalado a 19 de novembro, desafiando o público a refletir sobre a desigualdade no acesso a redes de saneamento básico. “Em muitas regiões, a falta de saneamento tem consequências muito graves, por isso é importante que essas crianças também possam ter acesso a água limpa”, defendeu.

As explicações despertaram a curiosidade das crianças, que foram interpelando o orador. “Como sabem que a água fica mesmo boa para beber?” perguntou-se no fundo da sala. Ricardo Santos detalhou que, antes de chegar às pessoas, a água é analisada – tanto à entrada das infraestruturas como à saída – para garantir que cumpre todos os parâmetros de qualidade. A resposta motivou a questão seguinte: “Também bebemos a água que vem da sanita?”. O investigador esclareceu que a água tratada pode ser reutilizada para rega, lavagem de ruas, limpeza de carros ou processos industriais, mas a água para consumo humano segue sistemas próprios e distintos.

Da ETAR, a narrativa avançou para o destino final da água tratada: jardins, espaços públicos, veículos e, em alguns casos, processos industriais como a produção de cerveja. A surpresa das crianças, ao perceberem que a água podia regressar ao mundo com novas utilidades, marcou um dos momentos mais vivos da sessão. Em vários momentos, o investigador reforçou que a “água residual deve ser vista como um recurso tratável e reutilizável” e alertou para o impacto de medicamentos ou objetos indevidos na sanita, que podem comprometer o funcionamento das infraestruturas e afetar rios e mares.

A sessão terminou com a imagem mental de rios e praias limpas, que permitiram reenquadrar o percurso da água: da sanita aos canos, dos canos à ETAR e da ETAR de volta ao ambiente. O percurso completo tornou visível o funcionamento real dos sistemas de saneamento e reforçou a ideia central da atividade: o ciclo urbano da água depende de infraestruturas complexas, mas também de escolhas simples do quotidiano, cujo impacto se estende muito para além de cada autoclismo acionado.

A iniciativa “Explica-me como se tivesse 5 anos” regressará em 2026 com novas sessões dedicadas a apresentar diferentes áreas de investigação desenvolvidas no Técnico:

Sessões passadas:

8 de outubro de 2025, 10h – “Como funciona um satélite?” – João Paulo Monteiro (ISR-Lisboa)

Reportagem: “Mas como é que funciona um satélite?”: Técnico abriu portas à curiosidade dos mais pequenos

12 de novembro de 2025, 10h –  “Como funciona um laboratório que pode viajar na palma da mão?” – Vânia Silvério (INESC-MN)

Reportagem: “Um laboratório na palma da mão: crianças descobrem a ciência em microescala no Técnico”

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