Rochas de diferentes cores, formas e texturas captam a atenção de dezenas de crianças. No centro, um peluche – “o Alfredo” – observa o cenário, rodeado por fragmentos de um mundo que, à primeira vista, parece distante. É a partir desta composição que emerge a pergunta que orienta toda a sessão: “De onde vêm as coisas com que fazemos as coisas?”.
A 18 de março, o Salão Nobre do campus Alameda do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, recebeu mais uma atividade do ciclo “Explica-me como se tivesse cinco anos”, desta vez dedicada às matérias-primas minerais. Ao longo da manhã, Amélia Dionísio, docente do Técnico e investigadora do Centro de Recursos Naturais e Ambiente (CERENA), conduziu as crianças por um percurso que ligou o quotidiano aos processos naturais e à intervenção da engenharia.
“O que trazem convosco vestido?”, começa por perguntar. A reação é imediata: os olhares descem para as roupas, cruzam-se entre colegas e surgem as primeiras respostas: “calças de ganga”, “camisolas de algodão”, “sapatos de pele”, “casacos de lã”. A partir destas observações, estabelece-se uma primeira distinção entre a origem dos materiais: animal, vegetal e mineral.
“Uma matéria-prima é aquilo que vem da natureza e que usamos para fazer outras coisas”, explica Amélia Dionísio. “Muitas das coisas que usamos todos os dias começam em minerais que estão nas rochas e no solo. Outras podem voltar a ser usadas, se as reciclarmos”.
As rochas dispostas sobre a mesa inicial ganham, então, novo significado. São levantadas, comparadas e analisadas. “As rochas são formadas por minerais ‘amigos uns dos outros’, que se formaram em condições parecidas”, refere a investigadora. A distinção entre rocha e mineral instala-se, acompanhada por outra questão: quantos existem na natureza? Entre respostas que variam de dezenas a milhões, surge o número real – cerca de 4500 minerais conhecidos, sendo apenas “uma dúzia responsável pela constituição da maioria das rochas”.
Ao longo da atividade, os exemplos multiplicam-se e ampliam o alcance da explicação. Moedas, instrumentos musicais, turbinas eólicas e infraestruturas do quotidiano são identificados como “dependentes de matérias-primas minerais”. A ligação entre os objetos e a sua origem torna-se progressivamente mais evidente, revelando a presença constante dos recursos geológicos em diferentes contextos.
“E como podemos encontrar estes materiais?”, questiona novamente a investigadora. A resposta introduz o conceito de ‘trabalho de prospeção’. “Os cientistas e os engenheiros usam técnicas para estudar o que está abaixo da superfície. Algumas são diretas, outras indiretas, como o uso de ondas para perceber o que está no subsolo”. A descoberta é apenas uma etapa do processo. “Para extrair, é preciso garantir segurança e ter autorização, e isso pode acontecer em minas a céu aberto ou subterrâneas”.
Depois da extração, surge a fase de processamento. “O que retiramos não é um mineral puro”, sublinha, explicando a necessidade de recorrer a energia, água, instalações industriais e reagentes para separar o mineral pretendido da rocha. “A função de um engenheiro de minas é encontrar as melhores formas de extrair a rocha e processar os minerais, procurando minimizar a energia e os resíduos”.
Na fase final da sessão, a explicação ganha dimensão prática. Divididos em duas equipas, os alunos assumem o papel de “engenheiros de minas” e enfrentam um desafio: separar e organizar, por cores, as peças de dois cubos de Lego – um composto por peças maiores, outro por peças mais pequenas. Com o cronómetro a contar e alguma agitação à mistura, as estratégias diferem e os resultados também, evidenciando a “influência da dimensão dos fragmentos nos processos de separação”.
Entre tentativas e comparação de abordagens, a atividade ilustrou um dos desafios centrais da área: a separação eficiente de materiais distintos. “Ao longo deste processo, é importante não esquecer a segurança das pessoas e a proteção do ambiente”, sublinha Amélia Dionísio. “Tudo o que usamos tem uma origem e um impacto, e a engenharia tem um papel muito importante na forma como gerimos estes recursos”.
O ciclo “Explica-me como se tivesse cinco anos” procura dar a conhecer, junto de públicos mais jovens, temas de investigação e áreas de engenharia desenvolvidas no Técnico. O programa prossegue até maio de 2026, com novas sessões dedicadas a diferentes áreas do conhecimento:
- 29 de abril de 2026, 10h – “Universo – Infinitamente grande ou Infinitamente pequeno?” – Pedro Abreu (LIP)
- 13 de maio de 2026, 10h – “Porque é que as bolas de sabão são redondas?” – Hugo Tavares (CAMGSD)
Sessões passadas:
8 de outubro de 2025, 10h – “Como funciona um satélite?” – João Paulo Monteiro (ISR-Lisboa)
Reportagem: “Mas como é que funciona um satélite?”: Técnico abriu portas à curiosidade dos mais pequenos
12 de novembro de 2025, 10h – “Como funciona um laboratório que pode viajar na palma da mão?” – Vânia Silvério (INESC-MN)
Reportagem: “Um laboratório na palma da mão: crianças descobrem a ciência em microescala no Técnico”
10 de dezembro de 2025, 10h – “O que acontece à água da sanita?” – Ricardo Santos (LAIST)
Reportagem: Crianças exploram o percurso invisível da água na terceira sessão do ‘Explica-me como se tivesse 5 anos’
4 de janeiro de 2026, 10h – “Para que serve a radiação?” – Joana Madureira (C2TN)
6 de fevereiro de 2026, 10h – “Sabiam que há cidades onde cada gota conta… e outras onde todas as gotas se perdem” – Filipa Ferreira (CERIS)
Reportagem: “Cada gota tem um caminho”: uma viagem pelo ciclo da água explicada aos mais novos no Técnico