O Salão Nobre, do campus Alameda, do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, encheu-se na manhã de 24 de fevereiro. Entre conversas sobre estágios, dúvidas sobre especializações e expectativas sobre o futuro, estudantes do Técnico reuniam-se para ouvir Miguel Costa, convidado palestrante da Semana Aeroespacial 2026, organizada pelo Núcleo de Estudantes de Engenharia Aeroespacial do Técnico (AeroTéc), no âmbito das Semanas das Carreiras do Técnico.
Natural do Algarve, Miguel Costa, atualmente investigador num programa pós-doutoral na National Aeronautics and Space Administration (NASA), partilhou um percurso marcado por decisões não lineares, oportunidades inesperadas e mobilidade internacional. “Não entrei no Técnico com o sonho de trabalhar no setor espacial”, começou por dizer. “A minha primeira opção foi Engenharia Mecânica e acabei em Engenharia de Materiais sem saber exatamente o que esperar”.
A descoberta do potencial da engenharia surgiu ao longo do curso, através do contacto com diferentes áreas e projetos. “Percebi que a engenharia é uma ferramenta para resolver problemas reais e que podia aplicá-la em muitos contextos”, explicou. O interesse pela investigação científica levou-o ao doutoramento na University of Cambridge, no Reino Unido, onde se especializou em novos materiais e sistemas térmicos.
“O momento de acabar o curso é, para muitos, um instante de incerteza”, explicou, descrevendo o desafio de transitar do ambiente académico para o mercado de trabalho. A candidatura à European Space Agency (ESA) marcou uma viragem, apesar dos desafios iniciais. “Levei com muitas portas fechadas, mas cada rejeição ensinava algo”, confessou, “Nunca tive um plano definido para chegar ao setor espacial. Fui explorando oportunidades”.
A ligação à NASA surgiu mais tarde, após o contacto com um investigador numa conferência científica. Atualmente, integra uma equipa dedicada ao desenvolvimento de tecnologias para missões espaciais, incluindo sistemas de robótica, novas soluções de propulsão e tecnologias para recolha e transporte de amostras planetárias. “O objetivo [do nosso trabalho] é resolver problemas que ainda não têm solução e que permitam explorar o universo de novas formas”, explicou.
Ao longo da sessão, destacou a diversidade de perfis necessários no setor aeroespacial e a valorização de competências multidisciplinares. “Conheço engenheiros a trabalhar em programação, controlo de satélites, robótica ou gestão de projetos. A engenharia permite essa adaptação”, afirmou, reforçando a importância de competências técnicas, soft skills e motivação pessoal.
Para quem ambiciona uma carreira internacional, aconselhou a “acompanhar atentamente o que se desenvolve fora de Portugal, preparar candidaturas com antecedência e aproveitar ao máximo as experiências académicas e associativas”. Tendo vivido e trabalhado em vários países, destacou o valor da mobilidade e da capacidade de adaptação. “Cada contexto trouxe novos desafios e aprendizagens. A exposição a diferentes culturas e formas de trabalho foi essencial para o meu percurso”, concluiu.
Semana Aeroespacial: “uma ponte entre o setor aeroespacial português e internacional e a comunidade estudantil do Técnico”
Desde a sua primeira edição, em 2002, a Semana Aeroespacial tem procurado reforçar a ligação entre o Técnico, a indústria e projetos internacionais. Para Dinis Costa, coordenador da iniciativa e estudante de Engenharia Aeroespacial, o evento “tem-se fortalecido como uma ponte entre o setor aeroespacial português e internacional e a comunidade estudantil do Técnico”. A participação crescente de empresas estrangeiras tem permitido ampliar o acesso a oportunidades globais, enquanto o investimento no setor em Portugal tem reforçado o envolvimento de entidades nacionais.
Sobre o papel de um engenheiro aeroespacial e os desafios identificados colocados à área, Dinis Costa, destacou a descarbonização da aviação, a gestão de detritos espaciais e o desenvolvimento de tecnologias reutilizáveis. “A capacidade de pensar de forma inovadora e explorar materiais e processos de fabrico alternativos será essencial para responder às exigências do setor e promover soluções mais sustentáveis”, defendeu. “Aliadas a uma capacidade de trabalho para a qual o Instituto Superior Técnico prepara os alunos particularmente bem, são a meu ver as bases para o sucesso de um engenheiro aeroespacial no mercado de hoje em dia”.
A Semana Aeroespacial incluiu sessões temáticas, feiras de emprego e momentos de networking, proporcionando experiências que complementam a formação académica e facilitam o contacto com empregadores. Para Miguel Costa, estas iniciativas são fundamentais para a construção de percursos profissionais informados. “Ajudam a clarificar objetivos e a perceber que existem muitas possibilidades”, mencionou. “Não existe um percurso único. O mais importante é procurar desafios, aprender continuamente e trabalhar em projetos com impacto. Ser ambicioso, mesmo perante a incerteza, é a melhor forma de preparar-se para carreiras internacionais e inovadoras”.