Nas Jornadas de Engenharia Física (JEF) do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, o regresso de antigos estudantes ao campus é também um momento de reflexão sobre os percursos possíveis após a formação em Engenharia Física e Tecnológica. Entre os convidados esteve Luís Guimarais, alumni do Técnico, que partilhou um percurso iniciado na investigação em fusão nuclear e que hoje passa pela análise de dados e pela Inteligência Artificial no setor financeiro.
Luís Guimarais ingressou no Técnico no final da década de 1990, numa altura em que, recorda, “se se queria estudar Ciência, era no Técnico”. A decisão por Física surgiu no final do ensino secundário, movida pelo interesse em compreender “como é que o Universo funciona” e pela convicção de que, para isso, “o que fazia sentido era estudar Física no Técnico”.
Ao longo da formação, a ligação ao trabalho experimental e ao laboratório tornou-se central. A permanência no meio académico prolongou-se durante vários anos, culminando no doutoramento no Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN), unidade de investigação associada ao Técnico. O trabalho incidiu sobre mecanismos de extração de calor em dispositivos de fusão nuclear, num contexto de colaboração internacional e de estudo de fenómenos com impacto no desempenho destas máquinas. “O doutoramento é estar na primeira linha do conhecimento”, afirmou. “Todos os dias nos confrontamos com a mesma pergunta: como é que resolvo este problema?”.
Concluído o doutoramento, a transição para a indústria surgiu num momento de redefinição pessoal e profissional. A experiência acumulada em modelação, controlo em tempo real e redes neuronais – desenvolvida no IPFN antes da generalização do machine learning no setor empresarial – facilitou a integração em novos contextos. “Passei muitos anos a trabalhar com dados, modelos e validação”, referiu. “Quando entrei na indústria percebi que muitas destas ferramentas eram exatamente as mesmas”.
Mais do que uma mudança técnica, descreve a transição sobretudo como uma adaptação a um novo contexto profissional. “A maior diferença foi perceber a cultura empresarial: a forma de pensar, de entregar resultados e de comunicar o problema”, explicou. Depois de um percurso num ambiente predominantemente académico, entrar na indústria implicou assumir um papel distinto. “Um doutoramento dá-nos uma grande bagagem, mas quando se entra na indústria é preciso crescer muito também como pessoa”.
Para Luís Guimarais, esta passagem não deve ser encarada como uma rutura com a investigação. “Ainda há muito estigma. Sair da investigação não é uma derrota pessoal”, afirmou. Na sua perspetiva, a formação em Física constitui sobretudo um treino para lidar com problemas complexos e incertos. “Aprendemos a pensar. O pensamento crítico é uma mais-valia em qualquer área”.
Ao regressar ao Técnico como orador, numa mesa-redonda dedicada ao “Impacto da Investigação Científica na Sociedade” deixou uma recomendação direta aos estudantes: investir no domínio de ferramentas basilares – programação, probabilidade e estatística – e compreender como estas sustentaram grandes avanços científicos. “Primeiro aprendam as bases e depois mãos à obra”. Num momento em que identifica desafios na valorização da ciência fundamental, defende que o “investimento em conhecimento estruturante é essencial para o desenvolvimento científico e tecnológico a longo prazo”.
Moderado por Joana Lobo Antunes, o painel contou ainda com as intervenções de Pedro Abreu, docente e investigador no Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP), de Manuel Andrade, Head of Open Innovation na Galp, e de Carla Patrocínio, coordenadora para a Direção de Transferência de Tecnologia do Técnico.
“Os estudantes do Técnico são cada vez mais reconhecidos não apenas pela sua preparação científica”
“As Jornadas da Física distinguem-se pela enorme variedade de possibilidades que apresenta”, explicou Lucas Gonçalves, responsável pela organização. “Todos os anos recebemos profissionais da indústria, da consultoria ou dos serviços financeiros, mas continuamos também a dar espaço à discussão de Física e investigação”.
Sob a premissa de aproximar os estudantes de “carreiras antes consideradas improváveis ou inalcançáveis”, as Jornadas de Engenharia Física afirmam-se como um ponto de encontro entre investigação e aplicação. “Ao longo de palestras, mesas-redondas e workshops, os participantes têm a possibilidade de aprender e interagir com líderes de grupos de investigação, ao mesmo tempo que contactam com percursos que evidenciam a versatilidade da formação”, acrescentou.
Para Lucas Gonçalves, a evolução das carreiras representadas nas Jornadas tem procurado acompanhar também a transformação do perfil dos estudantes que nelas participam. “Os estudantes do Técnico são cada vez mais reconhecidos não apenas pela sua preparação científica, mas também pela capacidade de se posicionarem como profissionais aptos a resolver problemas em diferentes áreas de trabalho”.
Entre 3 a 5 de março, as Jornadas de Engenharia Física (JEF), organizadas pelo Núcleo de Física do Instituto Superior Técnico ( NFIST), e integradas nas Semanas das Carreiras do Técnico, voltaram a reunir estudantes, alumni e profissionais em torno de diversos percursos possíveis – do laboratório à indústria – que hoje se abrem aos estudantes do Técnico.