O ponto de partida parece simples, mas suficiente para abrir uma sucessão de escalas difíceis de imaginar: perceber de que são feitas as coisas e até onde pode ir o conhecimento humano sobre o Universo. Na sessão de abril da iniciativa “Explica-me como se tivesse 5 anos”, no campus Alameda do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, Pedro Abreu, docente do Técnico e investigador no Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP) guiou os participantes numa viagem entre o ‘infinitamente grande’ e o ‘infinitamente pequeno’.
A sessão começou pelo que “está mais perto e é mais familiar”. O Sol, tomado como referência no céu, serviu para introduzir a noção de escala e relativizar perceções. “O Sol parece-nos muito grande porque está perto da Terra, mas, no contexto da nossa galáxia, é apenas uma estrela entre muitas outras, algumas bastante maiores”, explicou o investigador, evidenciando a relação entre dimensão e distância. A partir deste ponto, a abordagem alargou-se às galáxias, descritas como “conjuntos de estrelas”, e à evolução do conhecimento científico que, há cerca de um século, demonstrou que o Universo se estende para além da Via Láctea.
Para observar o ‘infinitamente grande’, Pedro Abreu recorreu à história e à tecnologia, recordando o momento em que Galileo Galilei apontou um telescópio para “ver o céu”, marcando o início da astronomia moderna. “Os telescópios são, no fundo, ferramentas que nos permitem ‘aumentar’ o Universo e ver mais longe no espaço e no tempo”, começou por explicar.
A transição para o ‘infinitamente pequeno’ fez-se através de uma inversão de escala. “Se os telescópios nos ajudam a ver o muito grande, os microscópios permitem-nos explorar o muito pequeno”, continuou Pedro Abreu. Entre exemplos próximos do quotidiano científico do Técnico, referiu microscópios eletrónicos capazes de revelar estruturas como cromossomas, vírus ou fragmentos de ADN. “Tudo o que conhecemos é feito de átomos”, acrescentou, introduzindo ainda uma nova escala da matéria.
“A ciência avança precisamente porque há perguntas sem resposta”
À medida que a dimensão observada diminuía, surgiam novas ferramentas e novos desafios. O investigador introduziu os aceleradores de partículas como “microscópios de grandes dimensões” que permitem estudar o interior dos protões e dos neutrões, constituintes do núcleo dos átomos. A referência ao Large Hadron Collider (LHC), no CERN (Organização Europeia para a Investigação Nuclear), localizado na Suíça, gerou uma reação coletiva na sala: “Tão grande!”, ouviu-se, perante um acelerador com 27 quilómetros de extensão.
“É assim que conseguimos perceber melhor de que é feita a matéria e quais e quais são as forças fundamentais da natureza”, destacou. “Ao provocar colisões a energias muito elevadas, conseguimos reproduzir, à escala microscópica, condições semelhantes às que existiam nos primeiros instantes do Universo”. Nessas colisões, as partículas fragmentam-se e dão origem a outras, permitindo observar constituintes fundamentais, como quarks e gluões, e compreender as interações que os ligam.
Entre o ‘muito grande’ e o ‘muito pequeno’, a sessão abordou também o que permanece por compreender. “Apesar de tudo o que já sabemos, apenas cerca de 5% do Universo é composto pela matéria que conseguimos descrever com átomos”, referiu. O restante corresponde à chamada ‘matéria escura’ e ‘energia escura’, cuja natureza continua por identificar. “Sabemos que existem pelos seus efeitos, mas não sabemos o que são. É um dos grandes desafios da ciência atual”, concluiu o físico experimental de partículas.
“A ciência avança precisamente porque há perguntas sem resposta”, sublinhou Pedro Abreu. Dirigindo-se aos participantes mais novos, deixou um desafio: “Nós, como investigadores, ainda não temos todas as respostas. Mas, se quiserem compreender melhor estas questões e contribuir para lhes dar resposta no futuro, o próximo passo é virem estudar Física para o Técnico”.
À saída, as conversas prolongaram-se para além do auditório. Entre estrelas, átomos e partículas, a pergunta inicial desdobrou-se num universo de perguntas por responder. A sessão terminou sem uma resposta definitiva, mas com um enquadramento mais claro: compreender o Universo implica explorar simultaneamente os seus extremos.
A iniciativa “Explica-me como se tivesse 5 anos” conta já com sete sessões realizadas nesta edição, aproximando o público mais jovem de diferentes áreas científicas desenvolvidas no Técnico. O ciclo termina a 13 de maio de 2026, às 10h, com a sessão “Porque é que as bolas de sabão são redondas?” – Hugo Tavares (CAMGSD).
Sessões passadas:
8 de outubro de 2025, 10h – “Como funciona um satélite?” – João Paulo Monteiro (ISR-Lisboa)
Reportagem: “Mas como é que funciona um satélite?”: Técnico abriu portas à curiosidade dos mais pequenos
12 de novembro de 2025, 10h – “Como funciona um laboratório que pode viajar na palma da mão?” – Vânia Silvério (INESC-MN)
Reportagem: “Um laboratório na palma da mão: crianças descobrem a ciência em microescala no Técnico”
10 de dezembro de 2025, 10h – “O que acontece à água da sanita?” – Ricardo Santos (LAIST)
Reportagem: Crianças exploram o percurso invisível da água na terceira sessão do ‘Explica-me como se tivesse 5 anos’
4 de janeiro de 2026, 10h – “Para que serve a radiação?” – Joana Madureira (C2TN)
6 de fevereiro de 2026, 10h – “Sabiam que há cidades onde cada gota conta… e outras onde todas as gotas se perdem” – Filipa Ferreira (CERIS)
Reportagem: “Cada gota tem um caminho”: uma viagem pelo ciclo da água explicada aos mais novos no Técnico
18 de março de 2026, 10h – “De onde vêm as coisas com que fazemos as coisas?” – Amélia Dionísio (CERENA)
Reportagem: “Das rochas aos objetos do dia-a-dia: crianças descobrem a origem das matérias-primas no Técnico”