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Eric Mazur e a inovação pedagógica no ensino superior: “repensar o ensino não é uma opção, mas sim uma necessidade”

Académico da Universidade de Harvard defende a promoção da aprendizagem ativa como principal motor de desenvolvimento do pensamento.

O Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, acolheu no dia 16 de janeiro, no Técnico Innovation Center powered by Fidelidade, a palestra “Confessions of a Converted Lecturer”. Eric Mazur, professor de Física da Universidade de Harvard e uma das figuras mais influentes a nível mundial na inovação pedagógica no ensino superior, refletiu criticamente sobre o modelo tradicional de ensino, num contexto marcado pelo rápido avanço da inteligência artificial (IA).

“Repensar o ensino não é uma opção, mas sim uma necessidade”, defendeu. Embora reconheça o potencial das tecnologias como ferramentas de apoio à aprendizagem, destaca o papel vital do docente naquilo que é a sua contribuição para a formulação do pensamento crítico, para a compreensão conceptual e para a autonomia intelectual dos estudantes, visto que tem o poder de orientar, questionar e estimular a reflexão. 

Perante uma audiência composta por docentes, investigadores e estudantes do Técnico, Eric Mazur partilhou a sua trajetória pessoal enquanto professor. Defendeu que os docentes devem “transportar as suas experiências para aquilo que é a vida profissional”. Confessou que em início de carreira, e sem se aperceber, estava a seguir o mesmo caminho que os professores que teve ao longo do seu percurso académico. Um modelo de ensino estritamente expositivo, sem grande relação com os estudantes e sem promover atividades em aula. E foi aqui que percebeu que algo tinha de mudar, admitindo que “ensinar é uma grande forma de aprender”. 

Tornar a aprendizagem mais humanizada é um dos grandes passos desta transformação. Criador do método Peer Instruction (Instrução entre Pares), Eric Mazur explicou que esta abordagem promove a participação ativa dos estudantes através do debate entre colegas, o que permite identificar e ultrapassar conceções erradas. Este modelo já é adotado por um conjunto de universidades em todo o mundo e tem demonstrado ganhos significativos na aprendizagem – o nível de respostas corretas pode aumentar de 50% para valores compreendidos entre 80% e os 90%.  

Reforçou a ideia de que no ensino é necessário o aluno ter tempo de pensar, refletir e processar a informação transmitida. Eric desenhou um método com os vários passos para uma boa discussão e assimilação de conhecimento em aula por parte dos estudantes: Perguntar – Pensar – Questionar – Discutir – Questionar novamente – Explicar (e repetir). 

Numa era em que a internet e a IA conseguem fornecer respostas de forma rápida, o papel do professor na transmissão de informação é muito importante para o desenvolvimento do pensamento crítico. É por isso que defende que a aprendizagem ativa, a avaliação formativa e o envolvimento dos estudantes são cada vez mais centrais num contexto em rápida mudança.

O professor terminou a palestra com uma breve reflexão, onde defendeu que quanto maior forem os níveis de aprendizagem, maior será a retenção, o que é fundamental para manter os estudantes atentos e interessados. “Uma melhor compreensão das coisas aumenta a resolução de problemas e precisamos das próximas gerações para resolver problemas que as atuais não conseguiram”, finalizou.

Eric Mazur visitou o Técnico no âmbito da inauguração de novos laboratórios para o ensino de física experimental, tendo contribuído para a conceção do novo espaço. Na inauguração da estrutura, voltou a destacar o papel da autonomia e da criatividade como motores fundamentais da motivação e do crescimento dos estudantes, referindo que se está a criar “um ambiente que promove competências essenciais”. Salientou ainda o contributo destes novos laboratórios para o aumento da qualidade do ensino no Técnico.

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Nos Media: “Eric Mazur: “Há um verdadeiro terramoto a abalar as instituições académicas”” (Público)