Como é que o som se propaga ao virar uma esquina de um edifício? Será possível analisar a luz de um semáforo para peões usando ferramentas que cabem numa mochila? Como é que a variação do tom do som de um carro pode ser usada para reconstruir o seu movimento?
Estas não são questões hipotéticas retiradas de um manual de Física – são questões escolhidas por 16 estudantes de licenciatura do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, participantes num projeto-piloto da unidade curricular de Laboratório de Física Experimental.
Desenvolvida ao longo do ano letivo de 2025/2026 por uma comissão dedicada do Departamento de Física do Técnico, com a orientação do físico Eric Mazur da Universidade de Harvard, a nova abordagem da unidade curricular substitui uma sequência de experiências baseadas em instruções por uma progressão de decisões que convidam à autonomia.
Os estudantes começam fora do laboratório, ao investigar um fenómeno ótico ou acústico utilizando ferramentas de medição. Munidos dos dados que recolheram pela cidade, os estudantes levam-nos até aos laboratórios de ensino do Técnico inaugurados em janeiro deste ano, para dar início a um desafio técnico que desenvolve competências essenciais em instrumentação e análise de dados. Por fim, concebem e executam um projeto aberto da sua própria autoria
“Queríamos eliminar o guião sem comprometer os padrões de qualidade”, explica Marco Piccardo, que, conjuntamente com Patrícia Conde Muíño, liderou a realização do projeto-piloto. Para o docente da unidade curricular de Laboratório de Física Experimental, “os alunos devem apropriar-se da questão e do aparelho, mantendo-se responsáveis pela calibração, repetibilidade, incerteza e evidência”. “O resultado mais importante”, sublinha Marco Piccardo, “não é que as ideias funcionem imediatamente, mas sim que os estudantes tratem o fracasso como informação e continuem a aperfeiçoar a experiência”.
De volta ao laboratório, o projeto-piloto dividiu-se em desafios de acústica e de ótica. O briefing de acústica exigia que os alunos transmitissem um sinal, o detetassem com microfones e identificassem os seus componentes de Fourier. Quanto ao briefing de ótica, exigia que construíssem um espetrómetro.
O objetivo estava definido, mas o caminho para alcançá-lo não. Esta distinção é fundamental para a conceção do curso: uma disciplina experimental convencional pode prescrever a sequência dos componentes, o procedimento de alinhamento e os passos de análise – um ‘guião de laboratório’, em suma. Já na unidade curricular de Laboratório de Física Experimental, diferentes grupos podem escolher diferentes fontes, geometrias, sensores e fluxos de análise. Os formadores intervêm através de perguntas, verificações de viabilidade e marcos técnicos, mas não orientam os alunos para uma única construção correta.
Este foi um projeto-piloto concebido como teste de viabilidade, em vez de uma avaliação controlada dos resultados de aprendizagem. Os indicadores são promissores: os grupos apresentaram soluções visivelmente diferentes para o mesmo briefing técnico, surgiram conceções de projetos ambiciosas e os estudantes mostraram repetidamente capacidade para desenvolver trabalho autónomo.
O Laboratório de Física Experimental redesenhado está previsto para ter início em setembro de 2026, integrado no plano curricular da Licenciatura em Engenharia Física Tecnológica. Os seus dois módulos, acústica e ótica, combinarão investigação ao ar livre, trabalhos de laboratório supervisionados e períodos de laboratório aberto. A avaliação contínua dará ênfase à autonomia, à responsabilidade do grupo, ao rigor experimental, ao profissionalismo e à qualidade do raciocínio subjacente a cada decisão.