Campus e Comunidade

“Explica-me como se tivesse 5 anos” arrancou em 2026 com sessão dedicada à radiação (que “nós [seres humanos] também transmitimos”)

Primeira sessão do ano encheu o Salão Nobre do Campus Alameda e mostrou como a radiação está presente na saúde, na alimentação e no ambiente - entre riscos, benefícios e muitas perguntas.

“Para que serve a radiação?” foi a pergunta que deu início, às 10h da manhã de 14 de janeiro, à primeira sessão de 2026 da iniciativa “Explica-me como se tivesse 5 anos”, no Salão Nobre do Campus Alameda do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa. Nas primeiras filas, crianças acompanhavam atentamente a conversa, algumas ainda com os pés a balançar sem tocar no chão, num ambiente marcado pela curiosidade e muitas perguntas ao longo da manhã.

Aquilo que não se vê nem tem cheiro começou a ganhar forma à medida que Joana Madureira, investigadora do Centro de Ciências e Tecnologias Nucleares do Instituto Superior Técnico (C2TN), foi conduzindo a conversa. A explicação partiu do espectro eletromagnético e da distinção entre radiações ionizantes e não ionizantes, num registo pensado para os mais novos, mas sustentado pelo rigor científico. 

Desde os primeiros momentos, foi sublinhada a presença da radiação no quotidiano. Exemplos ligados à área da saúde – como exames de radiologia, tomografia computadorizada, aplicações clínicas e processos de esterilização de material médico – permitiram mostrar como a radiação é utilizada em benefício da sociedade. “A radiação não está associada apenas ao perigo, mas também a benefícios concretos na área da saúde”, referiu Joana Madureira, enquadrando estas aplicações no contexto do uso controlado e regulamentado.

A investigadora abordou ainda as questões de segurança, os limites de exposição e os mecanismos de proteção, explicando que a “utilização da radiação depende sempre de regras claras e monitorização rigorosa”. Referências à cultura popular, como o Hulk, ajudaram a clarificar conceitos, nomeadamente a ideia de que a exposição à radiação provoca mutações imediatas. “Não ficamos verdes”, sublinhou, acrescentando que os efeitos dependem sempre da dose e do tempo de exposição.

As perguntas das crianças orientaram o desenvolvimento da sessão. Ao falar de fontes naturais e artificiais de radiação, Joana Madureira explicou que “nós [seres humanos] também transmitimos radiação”, reforçando a ideia de que a radiação está presente em todo o lado. “O que varia é a quantidade e o tempo de exposição e é essa diferença que separa o risco do benefício”, acrescentou, referindo que os efeitos negativos estão sobretudo associados a exposições muito elevadas, como em acidentes nucleares.

O interesse da sala intensificou-se quando o tema chegou à alimentação. A irradiação de alimentos foi apresentada como uma técnica utilizada para eliminar bactérias e fungos e prolongar a conservação de produtos frescos. Morangos, framboesas e cebolas foram usados como exemplos: no caso das cebolas, a radiação permite atrasar a brotação durante vários meses; nos frutos, contribui para manter a qualidade e a conservação por mais tempo. Ficou também claro que os “alimentos irradiados não se tornam radioativos e que a sua comercialização implica rotulagem específica”, identificada pelo símbolo ‘Radura’.

Apesar das vantagens, foi sublinhado que o principal desafio desta técnica não é técnico, mas sim a aceitação por parte dos consumidores. Em Portugal, explicou-se ainda, que o tratamento de alimentos com radiação não é atualmente permitido, com exceção das ervas aromáticas.

A explicação estendeu-se a outras aplicações da radiação, como o tratamento de águas contaminadas, a descontaminação ambiental e a redução de poluentes industriais. O pré-tratamento de resíduos agroindustriais permitiu explicar a extração de compostos fenólicos naturais, com propriedades antioxidantes, antimicrobianas e/ou anti-inflamatórias, ilustrando como subprodutos alimentares podem ser valorizados e reutilizados por diferentes indústrias. “O lixo doméstico transforma-se, assim, em matéria-prima com valor acrescentado através da radiação”, sintetizou Joana Madureira.

Foi novamente a curiosidade das crianças que conduziu a conversa até à tabela periódica a propósito da pergunta “qual o elemento com mais radiação?”. A explicação centrou-se no urânio e permitiu clarificar que os elementos radioativos são menos numerosos do que muitas vezes se pensa. A referência a Marie Curie ajudou a enquadrar a radiação como resultado de uma descoberta científica, abrindo espaço para novas questões sobre os elementos químicos e as suas propriedades.

A sessão terminou com a ideia de que a radiação está presente em várias dimensões da vida quotidiana e pode ser utilizada de forma segura e benéfica quando é compreendida, medida e aplicada com proteção adequada. O equilíbrio entre a linguagem acessível e o rigor científico marcou a primeira sessão de 2026 do “Explica-me como se tivesse 5 anos”, um programa que continua a abrir as portas do Técnico à curiosidade dos mais novos – e dos adultos que os acompanham.

Próximas sessões:

Sessões passadas:

8 de outubro de 2025, 10h – “Como funciona um satélite?” – João Paulo Monteiro (ISR-Lisboa)

Reportagem: “Mas como é que funciona um satélite?”: Técnico abriu portas à curiosidade dos mais pequenos

12 de novembro de 2025, 10h –  “Como funciona um laboratório que pode viajar na palma da mão?” – Vânia Silvério (INESC-MN)

Reportagem: “Um laboratório na palma da mão: crianças descobrem a ciência em microescala no Técnico”

10 de dezembro de 2025, 10h – “O que acontece à água da sanita?” – Ricardo Santos (LAIST)

Reportagem: Crianças exploram o percurso invisível da água na terceira sessão do ‘Explica-me como se tivesse 5 anos

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