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Inteligência artificial aplicada à energia, água, ambiente e agricultura esteve em debate no Técnico

Sessão reuniu investigadores do Técnico e profissionais do setor para discutir o papel da Inteligência Artificial na tomada de decisão no mundo físico.

Do fundo do mar aos solos agrícolas, passando por sensores, satélites e sistemas de apoio à decisão, a aplicação da Inteligência Artificial (IA) a contextos reais esteve em debate no Técnico Innovation Center powered by Fidelidade, a 12 de dezembro de 2025. Integrada no ciclo “A Inteligência Artificial em interação no mundo físico”, a iniciativa, organizada pelo Instituto de Sistemas e Robótica (ISR-Lisboa/LARSyS), reuniu investigadores do Instituto Superior Técnico e agentes do setor produtivo em torno do tema “Energia, Água, Ambiente e Agricultura”.

A investigação em robótica marinha cooperativa desenvolvida no Técnico contribuiu para a reflexão sobre a aplicação da Inteligência Artificial em ambientes naturais complexos. António Pascoal, investigador do ISR-Lisboa/LARSyS e antigo docente do Técnico, sublinhou os desafios associados à operação em áreas pouco estruturadas: “Estamos a lidar com áreas de grande extensão, onde é necessário processar imagens e grandes quantidades de dados para inferir o estado do ambiente”. Entre os exemplos referidos estiveram o mapeamento de radioatividade no fundo do mar e a monitorização da fauna, aplicações que exigem ferramentas avançadas de Inteligência Artificial “capazes de maximizar a informação disponível e apoiar a tomada de decisão em tempo real, fundamentais para o estudo dos ecossistemas”.

A perspetiva da monitorização ambiental foi aprofundada por Alexandre Bernardino, docente do Técnico e também investigador do ISR-Lisboa/LARSyS, que enquadrou a Inteligência Artificial como um “fator relevante” para setores estruturantes da economia portuguesa. “O salto económico faz-se quando se atua no mundo físico”, afirmou, destacando o papel da IA na integração de dados provenientes de sensores, satélites e séries históricas (para identificar padrões passados)”. Para o investigador, o desafio não se limita à análise, estendendo-se à intervenção e “à necessidade de dar confiança às pessoas para utilizarem a Inteligência Artificial”, nomeadamente através da aferição da incerteza, uma área ainda em desenvolvimento. 

A ligação entre tecnologia e prática agrícola foi trazida por João Coimbra, CEO da empresa Quinta da Cholda, que partilhou a experiência de décadas de investimento na recolha e interpretação de dados. “Para produzir um quilo de milho, tomo cerca de uma centena de decisões”, referiu, explicando que a gestão agrícola atual assenta em medições contínuas de água, energia e preços. Segundo o agricultor, a criação de séries de dados permite reduzir erros e melhorar a tomada de decisão, defendendo que “modelo agronómico clássico está a esgotar-se”, e que o futuro passará pela conjugação de diferentes tecnologias para responder aos desafios atuais da agricultura. 

Essa conjugação esteve no centro da intervenção de Tiago Morais, fundador da VirtuaCrop, empresa integrante da comunidade spin-off do Técnico, que apresentou soluções baseadas na combinação de modelação física tradicional com a aprendizagem automática. “O objetivo é sermos proativos e não reativos”, explicou, apontando para a possibilidade de estimar propriedades do solo por métodos indiretos e antecipar decisões antes da colheita. O alumni do Técnico salientou que o principal desafio do setor “não está na quantidade de dados disponíveis, mas na sua utilização eficaz para a tomada de decisão”, reconhecendo também a necessidade de ultrapassar a perceção dos modelos de IA como black boxes para reforçar a confiança dos utilizadores.

O enquadramento final foi feito por Tiago Domingos, docente do Técnico e investigador do Centro de Ciência e Tecnologia do Ambiente e do Mar (MARETEC), que situou a Inteligência Artificial no contexto do crescimento económico e da sustentabilidade. Recordando que “o crescimento económico tem sido historicamente baseado no uso massivo de energia”, o investigador enquadrou a atual transformação tecnológica “numa quarta revolução industrial fortemente ligada ao mundo físico”. Neste cenário, afirmou, a IA pode ser decisiva para reduzir o impacto ambiental e apoiar uma transição para aquilo que descreveu como podendo vir a ser “a primeira revolução industrial sustentável”.

O ciclo “A Inteligência Artificial em interação no mundo físico” regressará em 2026 com novas sessões dedicadas à análise de aplicações práticas da IA em diferentes setores e ao estudo dos desafios associados à sua utilização no mundo físico: 

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