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Inteligência Artificial na saúde: inovação, regulação e personalização em debate no Técnico

Sessão reuniu investigadores, profissionais de saúde e empresas para discutir o papel da IA no diagnóstico clínico, na organização dos cuidados e no enquadramento legal da saúde digital.

De um exame de imagem a um registo clínico, de um sensor de atividade física a um sistema hospitalar, a informação que sustenta a inteligência artificial (IA) na saúde nasce em contextos materiais, clínicos e humanos. A forma como estes dados são recolhidos, protegidos, partilhados e transformados em apoio à decisão esteve no centro da sessão “Inteligência Artificial na Saúde: Diagnóstico, Tratamento e Cuidados Personalizados”, que decorreu a 23 de janeiro de 2026, no Técnico Innovation Center powered by Fidelidade.

A iniciativa marcou o regresso, em 2026, do ciclo de conversas “A Inteligência artificial em interação no mundo físico”, organizado pelo Instituto de Sistemas e Robótica (ISR-Lisboa/LARSyS) em colaboração com o Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa. Moderada por Patrícia Figueiredo, docente do Técnico, a sessão reuniu diferentes perspetivas sobre a aplicação da IA na prática clínica, a gestão de dados de saúde e os desafios éticos e legais associados.

Catarina Barata, docente do Técnico e investigadora do ISR-Lisboa/LARSyS, destacou a origem clínica da informação utilizada pelos sistemas de IA, sublinhando que “os dados vêm de um processo muito físico”. No enquadramento da imagem médica e da análise de dados clínicos, salientou a relação entre o mundo físico e o digital e a “necessidade de preservar e organizar a informação dos doentes, garantindo condições de acesso equitativas e a proteção dos pacientes e dos seus dados”. Referiu ainda a existência de repositórios públicos e a importância da criação e disponibilização de dados para investigação.

Os desafios estruturais dos sistemas de saúde foram abordados por Francisca Leite, alumna do Técnico e representante da unidade hospital da Luz Learning Health, que descreveu uma “população envelhecida com carga de doença a aumentar num contexto de falta de recursos”. Neste cenário, explicou que a medicina personalizada – ajustada às características de cada doente – depende de maior digitalização e automação de processos ainda marcados por atrasos. Para a responsável, a integração de IA exige “uma reengenharia na saúde”, com revisão de processos, aposta na prevenção e reforço da confiança nos modelos. Destacou também o papel dos data spaces, conjuntos de dados de melhor qualidade para a investigação de novos algoritmos, num setor que “enfrenta desafios significativos, mas também oportunidades de transformação”.

A necessidade de adaptação organizacional e tecnológica foi reforçada por Marco Manso, da PARTICLE-Summary, empresa de soluções de dados avançados e sistema ciber-cívicos, que enquadrou o momento atual em “duas grandes transformações: digital e digital reforçada pelo aparecimento da inteligência artificial”. Perante novos modelos de IA, sublinhou a “importância da adaptação de profissionais e organizações, com automatização de sistemas acompanhada de validação humana”, apontando a monitorização contínua de hábitos e atividade física como exemplos de plataformas de apoio de dados, e defendendo o envolvimento dos diferentes intervenientes nos processos de inovação.

Também Henrique Martins, docente do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, destacou a importância de desenvolver sistemas “adaptados à realidade e à adaptabilidade de Portugal”, articulando tecnologia, regulação e contexto nacional. Defendeu ainda a urgência de legislação específica relativa aos dados de saúde e à sua disponibilização, como base para o desenvolvimento sustentado de soluções de IA neste domínio.

Entre perguntas do público, discutiram-se as implicações práticas e legais da utilização da IA em saúde, incluindo a responsabilidade em situações de falha de diagnóstico. Catarina Barata voltou a reforçar a importância de integrar processos de ética na investigação e aplicação clínica, mencionando o “essencial contributo destas tecnologias para a descoberta de novos biomarcadores e para o apoio à gestão da ocupação hospitalar”. 

Ao longo da sessão, a inteligência artificial na saúde foi apresentada como um campo em que decisões clínicas, infraestruturas de dados, organização dos serviços e enquadramentos legais evoluem de forma interdependente, exigindo articulação entre investigação, prática clínica, desenvolvimento tecnológico e políticas públicas. O ciclo de conferências “A Inteligência artificial em interação no mundo físico” encerra a 13 de fevereiro de 2026, das 15h às 16h30, com uma sessão dedicada ao tema Ética e Responsabilidade Social da IA”.

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