“Um saco de batatas custa 3 euros. O João comprou dois sacos. Quanto dinheiro é que gastou?”. O enunciado é simples, mas remete para um princípio essencial da matemática: antes de chegar à resposta, é preciso perceber o problema, identificar os dados e estabelecer relações.
Foi este desafio inicial que marcou o tom das Time2Talk, anteriormente designadas ‘Jornadas de Matemática’, que decorreram de 9 a 11 de março no Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, no âmbito das Semanas das Carreiras. Ao longo de três dias, a iniciativa, organizada Núcleo de Estudantes de Matemática do Técnico (NMath), colocou a matemática no centro de uma discussão que cruzou raciocínio abstrato, aplicações concretas e escolhas de percurso académico e profissional.
Na palestra “Generalizing and Operationalizing Analogy based reasoning”, Miguel Couceiro, professor do Técnico e investigador no Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores – Investigação e Desenvolvimento em Lisboa (INESC-ID), começou por propor um exercício de reconhecimento de padrões. Entre quadrados vermelhos e círculos verdes, os participantes foram desafiados a identificar semelhanças, estabelecer relações e escolher hipóteses. O que parecia um jogo revelou-se rapidamente um ponto de partida para uma questão mais profunda: como pensamos quando resolvemos um problema?
“A analogia está no centro da forma como raciocinamos”, explicou Miguel Couceiro. “Reconhecemos estruturas, transferimos conhecimento entre contextos e adaptamos soluções, muitas vezes, de forma intuitiva”. Do ensino básico às aplicações em inteligência artificial, o processo matemático descrito de identificação, transferência e adaptação de estruturas surge, nas palavras do docente, “como uma linguagem comum ao raciocínio humano e aos sistemas computacionais”.
Questionado sobre o contributo desta área para os desafios científicos e tecnológicos atuais, o investigador destacou a importância de formular corretamente os problemas. “Metade do trabalho é ter um bom problema para atacar”, afirmou. “As analogias permitem-nos fazer extrapolações, estabelecer paralelos entre situações e até explicar resultados produzidos por máquinas”.
A formalização surge, neste contexto, como uma etapa intermédia entre o pensamento e a ação. “Se queremos implementar uma solução num computador, temos de encontrar uma representação do problema que a máquina consiga processar. E isso, no fundo, são tarefas matemáticas”, acrescentou. “A formalização obriga-nos a tornar explícito aquilo que, muitas vezes, fazemos de forma implícita quando raciocinamos”.
Se a sessão partiu de um jogo de reconhecimento de padrões, terminou com uma reflexão sobre o próprio percurso académico. “Hoje em dia, muitas ferramentas conseguem fazer cálculos complexos, mas há dimensões do raciocínio, como a capacidade de estruturar e validar um argumento, que continuam a ser essenciais”, afirmou, incentivando os estudantes do Técnico a explorar diferentes áreas antes de definirem o seu caminho.
“A capacidade de desenvolver novas competências é algo muito valorizado numa realidade em constante mudança”
Com o propósito de “aproximar a realidade empresarial nas áreas a jusante da matemática”, as Time2Talk incluíram palestras e workshops em áreas como ciência de dados, aprendizagem automática, criptografia, finanças e saúde, evidenciando o caráter multifacetado da disciplina. “A matemática, pelo seu caráter formal e abstrato, é fundamental na compreensão e resolução de problemas complexos e, por isso, tem sido bastante valorizada nos últimos anos”, comentou Matilde Variz, responsável pela organização da iniciativa.
“A capacidade de desenvolver novas competências é algo muito valorizado numa realidade em constante mudança”, acrescentou, sublinhando o papel das empresas convidadas, que “apostam nas capacidades dos matemáticos” e contribuem para “esclarecer os estudantes do Técnico sobre possíveis percursos profissionais”.
Entre exercícios de analogia e discussões sobre inteligência artificial, a iniciativa destacou um elemento transversal à área: “a necessidade de estruturar o pensamento para lidar com problemas cada vez mais complexos”. Num contexto em que as ferramentas tecnológicas se multiplicam, a formalização matemática foi apresentada não apenas como um método, mas como uma forma de compreender e intervir no mundo.