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“O resultado mais importante do doutoramento é o doutorado”: Escola Doutoral do Técnico debateu doutoramentos em ambiente não académico

Sessão D100–E100 reuniu academia, empresas e entidades financiadoras para discutir modelos de formação doutoral fora do contexto exclusivamente académico.

Como pode a investigação doutoral beneficiar de uma ligação contínua às empresas sem perder exigência científica? Que valor acrescentado traz um doutoramento desenvolvido fora do contexto exclusivamente académico? Estas foram algumas das questões que estiveram no centro da sessão D100–E100, dedicada ao tema “Doutoramentos em ambiente empresarial”, promovida pela Escola Doutoral do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, em parceria com a  COTEC Portugal, a 27 de janeiro de 2026.

Três anos após o arranque da iniciativa D100-E-100, o encontro reuniu representantes da academia, do setor empresarial e de entidades financiadoras para refletir sobre modelos de doutoramento em ambiente não académico, num “contexto em que a criação e a aplicação de conhecimento exigem uma articulação cada vez mais próxima entre universidades, empresas e políticas públicas”, segundo Jorge Portugal, diretor-geral da COTEC Portugal e alumni do Técnico, que moderou a sessão. Para o responsável, a resposta passa por uma aposta nas pessoas. “Investir em capital humano e criar pontes estruturais é o caminho para empresas e academia prosperarem juntas”, afirmou, sublinhando o papel dos doutorados como agentes de ligação.

O enquadramento da atividade da Escola Doutoral foi apresentado por Leonel Sousa, coordenador da Escola Doutoral do Técnico, que destacou a dimensão e diversidade da formação doutoral, atualmente com cerca de 1100 doutorandos. “Quando analisamos a oferta e a estrutura curricular, percebemos que a ligação às empresas é fundamental, desde logo também para definir os problemas e metas de investigação”, defendeu. A integração de estágios em ambientes não académicos nos programas curriculares e a flexibilidade dos modelos formativos permitem, segundo o docente, articular investigação fundamental e aplicação prática. “A experiência empresarial acrescenta valor científico e cria um círculo virtuoso”, afirmou, apontando como ambição que, num horizonte de cinco anos, cerca de metade dos doutorandos do Técnico desenvolvam o seu trabalho em contexto não académico.

A experiência de quem percorreu este caminho foi trazida por João Ménagé Santos, doutorado em Engenharia Mecânica pelo Técnico, com trabalho desenvolvido na Hovione, empresa de desenvolvimento e fabrico farmacêutico. O antigo aluno destacou a importância do modelo de orientação dupla. “Ter dois orientadores, um académico e outro empresarial, com papéis claros e complementares, foi uma grande vantagem”, referiu. A proximidade à realidade foi também, segundo explicou, um dos principais fatores diferenciadores: “Trabalhar com dados reais, com problemas concretos da empresa e com contacto direto com os stakeholders muda a forma como a investigação é feita”. A opção por este modelo resultou do interesse pela investigação e pela criação de novo conhecimento, aliado à vontade de aplicar o método científico a desafios concretos. “É um excelente complemento para quem quer dar o passo seguinte e aproximar a investigação do mundo real”, concluiu.

Do lado empresarial, Pedro Bizarro, Chief Science Officer da Feedzai, empresa integrante da Rede de Parceiros do Técnico, centrou a sua intervenção na capacidade de transformar conhecimento científico em valor. “O resultado mais importante do doutoramento é o doutorado”, afirmou. “Capacidade de testar hipóteses, explicar resultados, lidar com a incerteza, demonstrar resiliência, pensamento crítico e domínio do ‘estado da arte’ são competências fundamentais”, enumerou, defendendo a necessidade de “tornar a ciência mais atrativa e compreensível para diferentes contextos de aplicação”.

A perspetiva do financiamento foi abordada por Madalena Alves, presidente do conselho diretivo da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e alumna do Técnico, que enquadrou as bolsas em ambiente não académico como instrumentos de apoio à formação avançada. “Estas bolsas existem para apoiar percursos de formação e não apenas projetos”, afirmou, reconhecendo que ainda há margem para crescimento. “Procuramos aumentar o número de oportunidades e reforçar a ligação entre empresas e academia”, acrescentou.

Francisco Santos, docente do Técnico e vice-reitor da Universidade de Lisboa, sublinhou a complementaridade entre modelos. “Um doutoramento em ambiente não académico não é melhor nem pior do que um doutoramento em ambiente académico, é uma proposta de valor diferente”, afirmou, defendendo também a necessidade de “repensar o financiamento das instituições de Ensino Superior”, de modo a assegurar o papel central da investigação.

Através da Escola Doutoral, o Técnico integra experiências em contexto empresarial nos percursos doutorais e promove a articulação com empresas, entidades públicas e organismos financiadores. 

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