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Professor do Técnico entre os 25 protagonistas da história da energia em Portugal

Agência para a Energia publicou obra sobre transição energética portuguesa, com Paulo Ferrão entre os rostos mais relevantes do último quarto de século.

Paulo Ferrão, professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, é uma das 25 personalidades em destaque no livro “A História Que Escreve Energia”, apresentado a 29 de maio pela Agência para a Energia (ADENE). A publicação revisita 25 anos de transformações no setor energético em Portugal, reunindo protagonistas, decisões e momentos-chave que ajudaram a moldar a evolução das políticas públicas de energia e ambiente, num período marcado por mudanças estruturais no país.

Investigador do Centro de Estudos em Inovação, Tecnologia e Políticas de Desenvolvimento (IN+), Paulo Ferrão tem sido um dos principais impulsionadores da ecologia industrial em Portugal, tendo liderado o MIT Portugal, no seio do qual criou o Doutoramento em Sistemas Sustentáveis de Energia, que coordenou no Técnico e que abriu caminhos para estudos estratégicos sobre a resiliência do sistema energético português.

Em entrevista, o docente do Técnico partilha um pouco do seu percurso neste ramo e o papel impulsionador que a Escola teve na investigação científica e dinamização do setor energético.

 

Em “A História Que Escreve Energia”, surge a par de outros 24 rostos ligados ao setor da energia. Que aspetos da sua carreira vê como contributos para ter sido um dos entrevistados?

Vejo a minha presença neste livro como inseparável do percurso que desenvolvi no Instituto Superior Técnico. A minha carreira foi construída no Técnico, através da investigação, da formação avançada e da ligação entre conhecimento científico, políticas públicas e indústria. O trabalho que desenvolvi em áreas como a ecologia industrial, os sistemas sustentáveis de energia, as cidades sustentáveis e a transição energética nasceu desse ambiente de excelência científica e de forte compromisso com a sociedade.

Entre os momentos que considero mais marcantes contam-se a co-criação do IN+ – Centro de Estudos em Inovação, Tecnologia e Políticas de Desenvolvimento, com o professor Manuel Heitor, a coordenação nacional do Programa MIT Portugal e, em particular, a coordenação da sua área de especialização em Sistemas Sustentáveis de Energia. Foi neste contexto que co-criei e coordenei, no Instituto Superior Técnico, o Doutoramento em Sistemas Sustentáveis de Energia, um programa pioneiro que formou uma nova geração de investigadores e especialistas capazes de responder aos desafios da transição energética.

Em boa medida, tudo aquilo que me levou a integrar este livro aconteceu no Técnico. Por isso, considero que, ao estar eu representado nesta obra, está também representado o Instituto Superior Técnico, cuja cultura de excelência, internacionalização e serviço público moldou o meu percurso e tornou possível o contributo que procurei dar ao desenvolvimento do setor energético em Portugal.

Qual tem sido o papel do Técnico neste setor?

O Instituto Superior Técnico tem desempenhado um papel absolutamente estruturante no desenvolvimento do setor energético português. Ao longo de décadas, formou gerações de engenheiros, investigadores, gestores e decisores que hoje ocupam posições de responsabilidade nas empresas, na administração pública, nas universidades e nos centros de investigação.

Mas o papel do Técnico vai muito além da formação. Tem liderado investigação de excelência em áreas como as energias renováveis, os sistemas energéticos, a eficiência energética, as redes inteligentes, o hidrogénio, a descarbonização e as cidades sustentáveis, sempre em estreita colaboração com empresas e entidades públicas. Foi também pioneiro na criação de programas doutorais internacionais e de parcerias estratégicas que aproximaram Portugal dos melhores centros mundiais de conhecimento, como é o caso do Massachusetts Institute of Technology (MIT).

O maior contributo do Técnico tem sido a capacidade de combinar excelência científica, formação de elevado nível e colaboração com empresas e entidades públicas. Essa cultura permitiu que muitas das soluções hoje adotadas no setor energético tivessem origem em investigação desenvolvida na Escola, formando simultaneamente as pessoas que as vieram implementar. Creio que este é um dos traços distintivos do Técnico: não produzir apenas conhecimento, mas colocá-lo ao serviço da sociedade e da competitividade do país.

Em que consiste o MIT Portugal?

O MIT Portugal foi uma parceria estratégica entre universidades portuguesas, centros de investigação, o MIT, empresas e entidades públicas, criada em 2006 com o objetivo de reforçar a formação avançada, a investigação e a inovação em áreas tecnológicas fundamentais para o desenvolvimento do país. Tive a honra de coordenar o programa entre 2006 e 2016, período em que este se afirmou como uma das mais bem-sucedidas parcerias internacionais da ciência e engenharia portuguesas.

Que resultados desse projeto destaca?

Ao longo dessa década, o programa atraiu e formou 986 estudantes, dos quais 741 de doutoramento e 245 de mestrado. Recebeu 3110 candidaturas aos programas de doutoramento, provenientes de 30 nacionalidades, produziu mais de 1000 publicações científicas, contribuiu para a criação de quase 20 startups e consolidou uma forte cultura de colaboração entre universidades, centros de investigação, empresas e administração pública.  

Na área que coordenei diretamente, a dos Sistemas Sustentáveis de Energia (Sustainable Energy Systems), criámos uma comunidade científica que reuniu universidades portuguesas e o MIT em torno dos grandes desafios da transição energética. Foi nesse contexto que co-criei e coordenei, no Instituto Superior Técnico, o Doutoramento em Sistemas Sustentáveis de Energia, um programa inovador que formou investigadores altamente qualificados e promoveu investigação em temas como eficiência energética, mercados de energia, redes inteligentes, mobilidade sustentável, integração de energias renováveis, planeamento energético e cidades sustentáveis. Muitos destes antigos alunos desempenham hoje funções de liderança em universidades, centros de investigação, empresas e organismos públicos, tanto em Portugal como no estrangeiro.  

Um dos aspetos que mais valorizo foi a forte ligação entre a academia e a indústria. Muitos projetos de investigação foram desenvolvidos em parceria com empresas como a EDP, REN, GALP, EFACEC e muitas outras, assegurando que o conhecimento produzido nas universidades, e em particular no Técnico, tivesse aplicação prática e contribuísse para a inovação empresarial e para a definição de políticas públicas. Creio que esse é um dos maiores legados do MIT Portugal: demonstrar que é possível articular investigação de excelência, formação avançada e inovação, colocando o Instituto Superior Técnico no centro da transformação do sistema científico e tecnológico português.