“Dizemos, com convicção, que o futuro da inovação em Portugal começa no Técnico”. Foi com esta frase que Rogério Colaço, presidente do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, abriu a 2.ª edição do Técnico Innovation Summit 2026, no dia 3 de fevereiro, no Técnico Innovation Center powered by Fidelidade. “Numa escola de ciência e engenharia como a nossa, inovar não é um extra: é a forma natural de cumprir a missão pública do conhecimento”.
Recordando a primeira edição do evento, realizada em novembro de 2024, Rogério Colaço destacou a consolidação da iniciativa que reúne unidades de investigação do Técnico, empresas e decisores públicos. “Hoje, nesta segunda edição, não estamos apenas a dar continuidade. Estamos a aprofundar uma cultura: a cultura de trabalhar em rede, de aproximar o laboratório do mundo real e de acelerar a transferência de tecnologia”.
À entrada do espaço do edifício, um conjunto de protótipos funcionava como ponto de partida para conversas técnicas e curiosidade prática. Um drone em repouso no chão chamava a atenção de quem circulava. “O equipamento é utilizado para a aquisição de imagem e digitalização tridimensional de blocos de pedra natural”, explicou Gustavo Paneiro, professor do Técnico e investigador no Centro de Recursos Naturais e Ambiente (CERENA). “Ao simular o modelo tridimensional do bloco antes do corte, conseguimos otimizar o processo e reduzir desperdícios do material”, acrescentou, no âmbito do projeto Sustainable Stone, integrado na agenda PRR dedicada à investigação de materiais ‘verdes’.
Em paralelo, o som contínuo de uma impressora 3D conduzia ao espaço do Instituto de Engenharia Mecânica (IdMEC). Sobre a mesa, ‘pós’ de calcário e granito mostravam a origem do material. “Estamos a dar nova utilização aos resíduos do corte da pedra”, explicou a investigadora Dora Sousa. “As lamas representam uma parte muito significativa da matéria inerte gerada. Ao utilizá-las como matéria-prima para fabrico aditivo, reduzimos o que seria encaminhado como resíduo e fechamos o ciclo”. Peças já produzidas a partir desses materiais, como conjuntos inspirados em tabuleiros de xadrez, ilustravam o resultado do processo de reaproveitamento.
Mais à frente, a conversa acontecia em torno de pequenas lentes transparentes e de um conjunto de óculos de simulação. “Estamos a desenvolver lentes de contacto à base de hidrogéis – um rede polimérica 3D com alta capacidade de absorver água – que funcionam como dispositivos médicos”, explicou Diana Silva, investigadora do Centro de Química Estrutural (CQE), referindo a sua aplicação em doenças oculares. “A lente pode servir de plataforma para libertação controlada ou monitorização, dependendo da patologia, mantendo a concentração necessária de fármaco ao longo do tempo”. Ao colocar os óculos de simulação, os visitantes experimentavam as limitações visuais associadas a diferentes condições, numa ligação direta entre materiais, química e saúde.
Nas mesas-redondas, a investigação do Técnico era discutida em contínuo, da transformação digital às energias sustentáveis, passando por aplicações em saúde, mobilidade, infraestruturas e segurança, evidenciando a articulação entre diferentes áreas científicas da Escola e desafios tecnológicos e industriais concretos. O ciclo de conversas contou com a intervenção de Gonçalo Matias, ministro adjunto e da Reforma do Estado, que destacou a ligação entre universidades e empresas como elemento central da estratégia de crescimento. “É justo reconhecer ao Técnico o seu ecossistema vibrante em ação. A ideia é transferir o conhecimento acumulado das universidades para as empresas e convertê-lo em crescimento económico”, afirmou, defendendo a mobilização deste esforço à escala do país.
“Olhar para o trabalho académico como uma base para aplicações reais”
Entre expositores, spin-offs e startups fundadas por estudantes, investigadores e alumni do Técnico davam expressão ao empreendedorismo académico. No projeto FlashGuard, Gonçalo Roiz, estudante de mestrado em Engenharia Física Tecnológica, descreveu a tecnologia desenvolvida para monitorização de feixes em radioterapia flash. “É um tratamento com taxas de dose muito elevadas que pode manter o controlo do tumor com menos efeitos secundários, mas a monitorização do feixe é crítica”, explicou. “O que fizemos foi passar do conceito para um protótipo funcional e começar a estruturar a solução também do ponto de vista empresarial. Programas como o Lab2Market ajudaram-nos a dar esse passo”. O grupo venceu a 9.ª edição, em 2025, do programa de aceleração de inovação organizado pelo Técnico com o apoio na NTT Data.
Também no projeto R.AI.Lspect, Aliya Ibrahimo, estudante de mestrado em Engenharia Mecânica, descreveu um sistema de sensores e algoritmos para monitorização contínua da via ferroviária. “A ideia é apoiar a transição de manutenção preventiva para preditiva, identificando irregularidades antes de se tornarem problemas”, afirmou, sublinhando que “iniciativas de apoio ao empreendedorismo permitem olhar para o trabalho académico como uma base para aplicações reais”.
A dimensão estratégica da inovação foi aprofundada no painel dedicado à política de inovação, financiamento e competitividade, moderado por Arlindo Oliveira, professor do Técnico e presidente do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores (INESC), onde se discutiu a necessidade de transformar investimento público e privado em resultados concretos. Alexandra Vilela, Presidente do Conselho de Administração do COMPETE 2030, defendeu maior direcionalidade nos apoios públicos, salientando a “importância de definir áreas prioritárias e estrangulamentos dos setores”, numa lógica em que o “investimento público deve funcionar como contraparte do investimento privado”.
Partindo da perspetiva da indústria, João Maciel, Managing Director da EDP e alumnus de Engenharia Electrotécnica e de Computadores do Técnico, destacou que a relação entre empresas e academia só se consolida quando as soluções são usadas em escala. “O esforço na inovação é muito mais do que tecnologia”, afirmou, associando-o a desempenho, criação de mercado e antecipação de tendências. Já Pedro Dominguinhos, presidente do Comité Nacional de Acompanhamento (CNA) do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), enquadrou necessidade de criar espaços de interface e de transformar conhecimento em valor económico, apontando a capacitação institucional e o foco em resultados como condições para que a investigação se traduza em competitividade.
Spin-offs do Técnico: “dar o salto da academia para o mercado”
No último painel do dia, dedicado às spin-offs do Técnico, a conversa centrou-se nas barreiras sentidas por quem “decide dar o salto da academia para o mercado” – o medo do desconhecido, a gestão do tempo e dos recursos, e a complexidade dos processos. A “necessidade de autoconfiança, redes de apoio e contacto com realidades fora do contexto académico” foram apontados como fatores-chave nesse percurso. O encerramento coube a Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa e alumni do Técnico, que regressou à escola onde se formou. “Devo a minha vida ao Técnico”, afirmou, destacando a inovação como motor de criação de emprego e defendendo a importância do cruzamento entre disciplinas, ciência e sociedade, numa mensagem final de confiança na capacidade coletiva de transformar conhecimento em futuro.
Ao longo do dia, o espaço expositivo reuniu, em quatro áreas distintas, projetos científicos em diferentes níveis de maturidade, empresas e startups de base académica, criando um percurso contínuo entre investigação e aplicação. Entre conversas técnicas e demonstrações, o programa integrou 10 painéis de discussão e mesas-redondas, com a participação de 18 unidades de investigação associadas ao Técnico, 18 spin-offs da Escola e 10 representantes da Rede de Parceiros do Técnico, refletindo a dimensão colaborativa e estratégica do encontro.