Uma mão pousa sobre a tampa transparente de uma caixa de Petri. Os dedos percorrem a superfície e deixam, sem que se veja, o primeiro vestígio da experiência. O resultado só chegará dias depois.
“Trouxemos 300 caixas de Petri para detetar as bactérias que cada pessoa tem na na sua mão”, explica Ana Azevedo, professora do Instituto Superior Técnico, junto à atividade “Vacinas Inovadoras e Gémeos Digitais”, do Instituto de Bioengenharia e Biociências (iBB). Depois de uma semana de cultura, cada participante poderá acompanhar, através de um QRcode, o crescimento das bactérias recolhidas. O que começa com uma impressão digital transforma-se, assim, numa pequena experiência de laboratório.
A demonstração faz parte da presença do Técnico na Noite Europeia dos Investigadores (NEI), que decorreu a 25 de setembro. Ao longo da noite (e da tarde), mais de três dezenas de atividades levaram investigadores, estudantes e projetos do Técnico ao Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC) e ao Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, e aos Jardins do Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras.
No Pavilhão do Conhecimento, Aurora, de oito anos, estreia-se na Noite Europeia dos Investigadores, pela mão do pai, Tiago Palmeira, investigador do Técnico, que regressa à iniciativa desta vez como visitante. “Gostei de tudo!”, diz entusiasmada, depois de já ter aprendido sobre “as plantas, as doenças, as vacinas, e os corantes dos ácidos”.
Para Tiago Palmeira, explicar ciência neste contexto exige “encontrar outras formas” de apresentar os conceitos com que trabalha diariamente. “É uma oportunidade para manter o contacto com a ciência e para mostrar conceitos de química e biociências de uma forma simples. Quando conseguimos tornar uma ideia visual e pôr uma criança a experimentar com as próprias mãos, a compreensão acontece de outra forma”, explica.
“Quando olhei para o relógio, já estava há duas horas a falar”
No Museu Nacional de História Natural e da Ciência, o percurso começa por uma pergunta escrita numa parede: “Qual destes materiais é mais sustentável?”. A atividade “Inovação Sustentável: Nature-driven Construction”, do Instituto de Investigação e Inovação em Engenharia Civil para a Sustentabilidade (CERIS), propõe aos visitantes um exercício de comparação entre materiais usados na construção.
Cimento, gesso, cal ou terra crua? A resposta não chega primeiro através de uma explicação, mas do contacto direto. Os visitantes são convidados a aproximar-se, tocar nos materiais e ordená-los de acordo com a quantidade de dióxido de carbono associada à sua produção. “A ideia é mostrar que as escolhas que fazemos na construção têm impacto ambiental e que esse impacto nem sempre é evidente à primeira vista”, explica a investigadora responsável pela atividade.
Mais adiante, no mesmo corredor, a atividade “Como Ver o que os Olhos Não Veem?”, do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores – Microsistemas e Nanotecnologias (INESC-MN), leva os visitantes a percorrem o espectro eletromagnético, do infravermelho à radiação ionizante.
Ana Sousa, estudante de doutoramento do Técnico, aproxima-se de uma das demonstrações. A proximidade de um pequeno minério de urânio faz subir a leitura de um contador de radiação de 10 para 350. “A experiência permite tornar visível, através de uma medição, aquilo que não é percetível pelos sentidos”, explica, no meio de muitos olhares curiosos. A demonstração dá lugar a perguntas sobre onde existe radiação, como é medida e quais os riscos associados. “Uma demonstração muito simples abre caminho para conversas sobre medicina, energia, segurança e tecnologia”, acrescenta.
Entre os presentes está Luís Gonçalves, de férias em Portugal e vindo dos Estados Unidos. Levado pelo interesse pela física, detém-se junto às atividades do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN) do Técnico. “Quando olhei para o relógio, já estava há duas horas a falar”, conta, entre risos. “Foi uma surpresa encontrar tantas pessoas disponíveis para falar sobre aquilo que fazem. Este tipo de evento devia acontecer mais vezes. Quero voltar com certeza”, deixa a promessa.
Em Oeiras, a programação desloca-se para os Jardins do Palácio do Marquês de Pombal. Também aqui, as atividades convidam a parar, experimentar e conversar, desta vez num espaço ao ar livre onde diferentes áreas da investigação se cruzam ao longo do percurso.
Num dos espaços, Rafaela Marques, investigadora do Centro de Recursos Naturais e Ambiente (CERENA), apresenta alguns dos materiais com que trabalha na sua investigação. “Pegamos em diferentes biomassas, desde resíduos alimentares a resíduos ambientais”, começa por explicar, enquanto enumera os elementos dispostos sobre a bancada. “Madeira queimada, resíduos alimentares e cascas de frutos secos podem, através de processos químicos, ser transformados em bio-óleo, com aplicações na energia, nos combustíveis e nos materiais”, completa. Sobre a bancada, resíduos de diferentes origens mostram como “materiais habitualmente descartados” podem ser convertidos em novos recursos.
Poucos metros adiante, são as crianças que tomam a iniciativa. Ao avistarem o protótipo do projeto europeu ‘SOLAR-MOVE’, do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores – Investigação e Desenvolvimento em Lisboa (INESC-ID), entram no veículo e a primeira pergunta é se podem andar nele. Alexandre Bento, investigador e membro do projeto, acompanha a sucessão de perguntas sobre o veículo, os painéis fotovoltaicos e o que o faz funcionar. “É interessante porque a comunidade, no seu geral, muitas vezes não tem noção do que é ciência, nem das diferentes áreas que existem”, observa. Do entusiasmo das crianças às questões dos adultos, o veículo serve de ponto de partida para falar de aplicações que podem ir dos veículos de distribuição aos autocarros e às autocaravanas.
“Gosto muito da diversidade desta noite, porque podemos encontrar áreas muito diferentes no mesmo espaço”
O percurso pela NEI, faz-se também de desvios. Beatriz, estudante do 11.º ano, chega “particularmente interessada por projetos ligados à biologia e à saúde”, mas os óculos de realidade virtual da atividade “Reabi(li)tar Edifícios Subutilizados, Reabitar a Cidade”, do Centro de Investigação em Território, Urbanismo e Arquitetura (CiTUA), fazem-na parar.
Não é a primeira vez que visita a Noite Europeia dos Investigadores. Há mais de dois anos que participa acompanhada pela mãe, Joana Sousa. “Tentei sempre, ao longo dos anos, que ela tivesse experiências diferentes na área da investigação e da ciência”, começa por explicar. “Acho que são atividades muito importantes para pôr a ‘cabecinha a funcionar’, para questionar e para perceber melhor aquilo que nos rodeia. Gosto muito da diversidade desta noite, porque podemos encontrar áreas muito diferentes no mesmo espaço”.
Para Beatriz, essa diversidade é também uma forma de descobrir possibilidades. “Às vezes vimos com uma ideia muito fixa daquilo que gostamos, mas depois encontramos áreas que não conhecíamos tão bem e percebemos que também podem ser interessantes”, partilha. A experiência de realidade virtual permitiu-lhe ainda observar de outra forma as “possibilidades de reabilitação dos edifícios” e dos espaços urbanos: “É diferente ver um projeto assim. Percebemos melhor o espaço e aquilo que pode mudar”.
Foi neste encontro entre públicos, idades e áreas de investigação que, para Pedro Anastácio, estudante de mestrado do Técnico no Instituto de Engenharia Mecânica (IdMEC), a Noite Europeia dos Investigadores ganha outra dimensão. “Mais do que apresentar resultados ou explicar conceitos, trata-se de criar um espaço para perguntar, experimentar e conversar sobre a investigação que se faz no Técnico”, frisa. “Levar a investigação que se faz em Portugal para perto do público é também mostrar que a ciência não está distante”, conclui.
A noite termina, mas algumas experiências continuam. Longe das bancadas e do movimento dos visitantes, as caixas de Petri seguem agora o seu próprio tempo. Nos próximos dias, aquilo que ficou invisível ao toque começará a crescer. E, para lá das portas que se fecham, ficam também as perguntas que a investigação deixou pelo caminho.
Lista das Unidades de Investigação associadas ao Técnico que participaram nesta edição da NEI, em Lisboa:
- Centro de Análise Matemática, Geometria e Sistemas Dinâmicos (CAMGSD);
- Centro de Astrofísica e Gravitação (CENTRA);
- Centro de Ciências e Tecnologias Nucleares (C2TN);
- Centro de Estudos de Gestão do Instituto Superior Técnico (CEGIST);
- Centro de Física e Engenharia de Materiais Avançados (CeFEMA);
- Centro de Química Estrutural (CQE);
- Centro de Recursos Naturais e Ambiente (CERENA);
- Centro para a Inovação em Território, Urbanismo e Arquitetura (CiTUA);
- Instituto de Bioengenharia e Biociências (iBB);
- Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores Inovação (INOV);
- Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores – Investigação e Desenvolvimento em Lisboa (INESC-ID);
- Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores – Microsistemas e Nanotecnologias (INESC-MN);
- Instituto de Engenharia Mecânica (IdMEC);
- Instituto de Investigação e Inovação em Engenharia Civil para a Sustentabilidade (CERIS);
- Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN);
- Instituto de Sistemas e Robótica de Lisboa (ISR-Lisboa);
- Laboratório de Águas do Instituto Superior Técnico (LAIST);
- Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP).