Como podem a inteligência artificial, a automação laboratorial e a experimentação autónoma acelerar a descoberta de novos materiais? Foi para responder a esta questão que a Training School AccelMAPs 2026, escola internacional dedicada ao desenvolvimento de materiais para a energia, reuniu 84 participantes de 19 países europeus no campus Loures do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, entre 18 e 21 de maio.
Durante quatro dias, 11 formadores partilharam conhecimento com 73 investigadores em diferentes etapas da sua carreira, onde puderam explorar metodologias e tecnologias emergentes, da modelação atomística à caracterização avançada de materiais, que estão a acelerar a investigação em ciência e engenharia de materiais, na área de tecnologias de produção de energia.
Entre os participantes estiveram vários estudantes de doutoramento do Técnico e de outras universidades nacionais e estrangeiras, para quem a AccelMAPs representou uma oportunidade de compreender melhor o potencial destas tecnologias na investigação. Beatriz Santos, estudante do Doutoramento em Engenharia de Materiais do Técnico, destacou que “a promessa de investigar com maior rapidez, através da automação e da execução eficiente de tarefas complexas, parece simultaneamente ambiciosa e real”.
O evento insere-se na rede europeia EU-MACE, que procura construir um ecossistema de investigação em torno de Materials Acceleration Platforms (MAPs) – sistemas de investigação científica altamente automatizados, com recurso a inteligência artificial, que permitem o desenvolvimento mais rápido de novos materiais quando comparado com processos envolvendo maior intervenção humana. Estes agentes de inteligência artificial laboratorial servem, assim, como “assistentes” dos cientistas, ficando estes últimos libertos da natureza frequentemente repetitiva do trabalho experimental e mais disponíveis para outras tarefas de investigação.
Para além de várias palestras alocadas ao tema, a escola AccelMAPs incluiu a apresentação de 30 pósteres e visitas ao Laboratório de Aceleradores, ao Liquefator de Hélio, ao IRIS (Instalação de Radiações Ionizantes) e ao edifício da Criogenia, no qual se encontram os laboratórios de Espectroscopia Mössbauer, Magnetometria e Propriedades de Transporte Elétrico, promovendo a troca de experiências entre investigadores de diferentes áreas e países.
Na sessão de abertura do evento, Sawako Nakamae, presidente da Ação COST EU-MACE, dedicou o seu discurso a destacar o papel das MAPs, explicando que a escola foi concebida para demonstrar como ferramentas como a simulação, a inteligência artificial, a automação e a ciência de dados podem apoiar a transformação dos laboratórios convencionais em ambientes de investigação mais integrados. “Não pretendemos apenas desenvolver MAPs, mas também perceber como os laboratórios tradicionais podem ser transformados e integrados nestas plataformas para acelerar a investigação em materiais para a energia em toda a Europa”, afirmou.
A organização local do evento foi assegurada por três investigadores do Técnico, todos eles também a integrar a Ação COST EU-MACE – António Pereira Gonçalves, Ana Charas e Sandra Rabaça.
Para António Pereira Gonçalves, investigador do Centro de Física e Engenharia de Materiais Avançados (CeFEMA), iniciativas como a AccelMAPs são “fundamentais para a aceleração do desenvolvimento de novos materiais e sistemas sustentáveis”. Já Ana Charas, investigadora do Instituto de Telecomunicações (IT), destaca a visão integrada das tecnologias que estão a “moldar a próxima geração de laboratórios inteligentes”. Sandra Rabaça, investigadora do Centro de Ciências e Tecnologias Nucleares (C2TN), sublinhou, por sua vez, que a escola permitiu tornar mais concreto o “conceito de plataformas de aceleração de materiais” e compreender a evolução dos laboratórios para “ambientes mais integrados, autónomos e orientados por dados”.