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Tecnologia, arte e futuro social em debate com apresentação de livro no Técnico

“Inteligência Artificial: Manual de Sobrevivência”, de Leonel Moura, propõe reflexão sobre os desafios estruturais da tecnologia.

Da arte rupestre às máquinas autónomas, a relação entre o ser humano e a tecnologia marcou a apresentação do livro “Inteligência Artificial: Manual de Sobrevivência”, de Leonel Moura, a 2 de março de 2026, no Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, no Técnico Innovation Center powered by Fidelidade. A sessão reuniu membros da comunidade académica e cultural para discutir o lugar da Inteligência Artificial (IA) numa transformação que o autor caracteriza como “estrutural”.

Reconhecido pelo trabalho desenvolvido na interseção entre arte, robótica e IA, Leonel Moura tem explorado a “criatividade das máquinas”, sendo autor do espaço de exposição “Arte com ciência”, patente no mesmo espaço até ao final de abril. No livro agora apresentado, propõe uma leitura histórica da tecnologia como extensão das capacidades humanas, evocando um percurso que remonta às primeiras ferramentas desenvolvidas há dezenas de milhares de anos. A Inteligência Artificial surge, neste contexto, como uma continuidade – mas com implicações qualitativamente distintas.

“Temos tendência para projetar a inteligência à nossa imagem”, afirmou, defendendo que circunscrever o conceito ao ser humano “é uma leitura restritiva do próprio termo”. Para o autor, os sistemas atuais não devem ser entendidos apenas como instrumentos. “Reduzir o computador a uma ferramenta é não reconhecer a dimensão da mudança. Estamos perante uma transformação que envolve sistemas com capacidade de aprendizagem e decisão”. Treinados a partir da cultura humana, os modelos de IA evoluem, segundo referiu, num processo de autonomia acelerada, produzindo resultados que podem ultrapassar o conhecimento individual.

Ao abordar possíveis cenários futuros, Leonel Moura admitiu a hipótese de uma inversão progressiva de papéis na relação Homem-Máquina. “É plausível que caminhemos para uma sociedade em que o trabalho humano, tal como o conhecemos, tenda a diminuir”, afirmou. Nesse enquadramento, defendeu a necessidade de repensar modelos de organização social e de assegurar condições de coesão e sustentabilidade. “Devemos interrogar-nos sobre o rumo que queremos seguir”, sublinhou.

A sessão contou com a participação de Arlindo Oliveira, professor catedrático do Técnico e presidente do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores (INESC), que destacou a importância de promover um debate informado e plural. “Não se trata de celebrar nem condenar, mas de compreender”, afirmou. Para o investigador, é essencial antecipar questões de regulação e refletir sobre mecanismos que assegurem o equilíbrio social, evitando respostas tardias a transformações já consolidadas.

“Pensar o que será o mundo daqui a 50 anos implica reconhecer que raramente antecipamos o verdadeiro impacto das inovações”, referiu, evocando exemplos como os telemóveis ou a internet, cujos efeitos sociais e económicos ultrapassaram largamente as expectativas iniciais. Neste ponto, reconheceu que a análise técnica, por si só, se revela insuficiente para imaginar cenários de longo prazo. “É nesse limite que a arte pode ter um contributo decisivo”, afirmou, sublinhando a capacidade dos artistas para projetar hipóteses, questionar pressupostos e ampliar o horizonte de possibilidades sobre o modo como a sociedade poderá reorganizar-se.

O debate, situado entre ciência e criação artística, reforçou a importância do diálogo interdisciplinar na compreensão dos desafios colocados pela Inteligência Artificial e na reflexão sobre os caminhos possíveis para as próximas décadas. “A velocidade da transformação é a grande questão que se coloca”, sintetizou Arlindo Oliveira no encerramento da sessão, sublinhando a necessidade de preparação para uma realidade em rápida evolução.

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