A última pista esconde-se nas letras do Técnico.
No Salão Nobre do campus Alameda do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, um telescópio aponta para a fachada do edifício em frente. À volta da objetiva sucedem-se tentativas, trocam-se oculares e discutem-se ampliações. “Experimenta aquela”, sugere-se entre os participantes. Inspirado no filme de ficção científica Interstellar, o desafio consiste em descobrir uma “mensagem escondida” nas letras que identificam o campus, recorrendo à combinação de diferentes oculares e à relação entre ampliação e distância focal.
“Descobrimos a palavra!”, anuncia um dos grupos. A resposta – “gravidade” – encerra o desafio, mas não a curiosidade. À medida que as explicações terminam, surgem novas perguntas e multiplicam-se as experiências junto do telescópio.
A atividade, intitulada “A Física da Ficção” e organizada pelo Núcleo de Física do Instituto Superior Técnico (NFIST), integrou o programa do Verão na ULisboa, promovido em simultâneo por várias Faculdades da Universidade de Lisboa. Entre 29 de junho e 3 de julho, cerca de duas centenas de estudantes do Ensino Secundário passaram pelos campi da Alameda e de Oeiras do Técnico, onde participaram em atividades laboratoriais, desafios de engenharia e visitas dinamizadas por vários Núcleos de Estudantes da Escola.
“Para muitos estudantes, esta é a primeira vez que entram numa universidade e percebem como é estar num campus, falar com alunos mais velhos e experimentar áreas diferentes”, partilha Diana Santos, estudante de Engenharia Biológica do Técnico e mentora de um dos grupos. “É muito interessante vê-los chegar com alguma timidez e, ao fim de poucas horas, já estarem a discutir ideias, a fazer perguntas e a imaginar-se aqui”.
Quando a engenharia começa em cartão, seringas e silicone
Do outro lado do campus, no Pavilhão de Eletricidade, a ficção dá lugar à engenharia mecânica. Sobre as mesas acumulam-se placas de cartão, tubos de silicone, braçadeiras, paus de espetada e seringas. Em pouco mais de uma hora, aqueles materiais dispersos terão de dar origem a uma “garra hidráulica capaz de abrir, fechar e mover-se de cima para baixo”.
“O desafio permite mostrar como princípios de mecânica e hidráulica podem ser aplicados na construção de um sistema funcional”, explica Bernardo Matos, mentor da atividade promovida pelo Fórum Mecânica (NEMIST). “Mais do que terminar primeiro, queremos que percebam o processo, testem soluções, aprendam com os erros e trabalhem em equipa”.
À medida que o cronómetro avança, o ambiente muda. As primeiras estruturas começam a ganhar forma, algumas seringas recusam-se a colaborar e surgem inevitavelmente os primeiros pedidos de ajuda. Em várias bancadas, uma solução que parecia definitiva acaba desmontada poucos minutos depois para dar lugar a uma ideia melhor. Entre ajustes de última hora, cada desafio vale pontos para a classificação final e ninguém quer ficar para trás.
Para Leonor, finalista do 12.º ano, foi “esta componente prática um dos aspetos mais diferenciadores” da semana. “Podermos experimentar, mexer nos materiais e perceber como as coisas funcionam”, conta. Com Engenharia Biomédica no Técnico entre as possibilidades para o futuro, destaca ainda a oportunidade de conhecer áreas que nunca tinha explorado. “Achei que já tinha uma ideia do que era engenharia, mas estas atividades mostraram-me que existem muitas formas diferentes de resolver problemas”.
À saída, os grupos cruzam-se, comparam pontuações, trocam impressões sobre as atividades anteriores e seguem para a sala seguinte. Da Física à Engenharia Civil, da Arquitetura à Engenharia Aeroespacial, passando pela Química ou pela Biomédica, cada porta abre uma nova área do conhecimento.
Projetar uma casa antes de construir paredes
“O desafio é construir uma maquete pensada para responder às necessidades dos vossos clientes”, anuncia Catarina Bonito, dando início à atividade organizada pelo Núcleo de Estudantes de Arquitetura (NucleAR). Cada equipa recebe o perfil de um utilizador fictício e um conjunto de requisitos específicos que terá de “traduzir na organização dos espaços de uma habitação”. A missão começa antes da construção: pensar.
Munidos de folhas quadriculadas, lápis e placas de cartão, os participantes começam por discutir a vida de quem irá habitar aquela casa imaginada. Pensam na funcionalidade dos espaços, na circulação, na luz, no conforto e na relação com o exterior. Algumas equipas redesenham a planta várias vezes; outras levam à letra o pedido de criar “um palco para dias intensos” e colocam um verdadeiro palco de espetáculos no centro da habitação.
“Achei interessante perceber que uma casa não começa pelas paredes”, observa Filipa, aluna do 11.º ano, enquanto ajusta a disposição das divisões na maquete. “Primeiro é preciso pensar nas pessoas, na forma como vivem e na maneira como todos os espaços se relacionam”. Até então, admite, “nunca tinha pensado na arquitetura dessa forma”.
No exterior, onde o calor do início de julho já se faz sentir, os baldes cheios de água anunciam um desafio diferente dos anteriores. Desta vez, a competição dá lugar ao convívio. Duas equipas alinham-se frente a frente. Uma esponja encharcada tem de percorrer todo o percurso, passando de participante em participante, mas existe uma condição: só pode ser transportada com a parte do corpo indicada num cartão retirado ao acaso. Se cair ao chão, o percurso recomeça.
Antebraços, cotovelos, ombros e pés substituem as mãos. As primeiras estratégias rapidamente dão lugar à improvisação. O chão fica molhado, multiplicam-se os incentivos e cada chegada da esponja ao balde final é recebida com aplausos e gargalhadas. “Foi uma forma muito divertida de terminar o dia”, comenta Madalena, participante de 15 anos, sobre as atividades dinamizadas pelo Núcleo de Apoio ao Estudante (NAPE). “Já estávamos todos cansados, mas acabámos a correr, a rir e a tentar encontrar a melhor estratégia sem deixar cair a esponja. Foi impossível não nos envolvermos”.
O entusiasmo repetiu-se também no campus Oeiras do Técnico, onde os desafios práticos despertaram novas vocações. Foi ali que Inês, de 14 anos, descobriu um universo que até então “conhecia apenas de nome”. Depois de experimentar diferentes atividades, da programação de um jogo inspirado no Pac-Man à construção de sequências de LEDs e de um circuito eletrónico, foi este último desafio que mais a surpreendeu. “Parecia muito mais complicado do que realmente foi”, admite, orgulhosa.
Também Tomás, de 13 anos, chegou ao campus Oeiras por recomendação de um amigo, cujo irmão já tinha participado numa edição anterior do programa. Continua a sonhar em ser piloto de avião, mas a semana abriu-lhe novas perspetivas. “Estou a descobrir coisas que nem imaginava como eram feitas”, conta. O contacto com placas eletrónicas, linhas de código e outros desafios levou-o a perceber que vale a pena manter uma “opção B” em aberto e que a Engenharia Aeroespacial no Técnico passou a ocupar um lugar entre as possibilidades que considera para o futuro.
Durante cinco dias, laboratórios, salas de aula e espaços comuns transformaram o Técnico num “espaço de descoberta”, onde experiências, desafios e momentos de convívio ajudaram os participantes a conhecer diferentes áreas da Escola e contactar com os estudantes que nela constroem o seu percurso académico. “Ajudou-me a perceber muito melhor as áreas que existem e aquilo de que realmente gosto”, resume Miguel, aluno do 10.º ano. Entre tantas possibilidades, diz ter ficado apenas com uma certeza: “Querer voltar ao Técnico”.
A partir de 6 de julho, o Verão na ULisboa no Técnico continua com uma nova semana de atividades, desta vez dirigida a estudantes do 3.º ciclo do Ensino Básico.