A ciência também se faz de histórias. Vivem nas simulações que demoram dias a correr, nas experiências que falham antes de resultar, nas conversas entre investigadores que tentam responder a perguntas sem resposta imediata. Vivem, também, na persistência de quem procura compreender como brilham as estrelas e como essa mesma energia poderá, um dia, ser reproduzida na Terra.
É este “Universo” que trará a jornalista colombiana Stefany Hernández ao Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, no âmbito da 4.ª edição do FRONTIERS Science Journalism in Residency Programme. Ao longo de cinco meses, a partir de outubro de 2026, acompanhará de perto a investigação desenvolvida pelo Grupo de Lasers e Plasmas (GoLP), do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN), tornando o Técnico a única instituição portuguesa a acolher uma jornalista nesta última ronda do programa europeu.
“Sempre fui fascinada pela astrofísica”, começa por contar. “Mas, mais do que admirar esta ciência, interessa-me perceber como o conhecimento que adquirimos ao observar as estrelas pode ajudar a responder a desafios da sociedade, desde as alterações climáticas ao desenvolvimento de novas tecnologias de saúde”.
Ao chegar ao Técnico, Stefany Hernández não procura apenas “compreender como funcionam lasers de elevada intensidade” ou como se recriam, em laboratório, “condições semelhantes às do interior das estrelas”. Quer perceber como se faz ciência quando “ninguém está a olhar”. “Gostava que os investigadores partilhassem os desafios, os contratempos e até as histórias mais inesperadas do laboratório”, explica. “É aí que acontece a verdadeira aprendizagem”.
Para Luís Oliveira e Silva, professor do Técnico e investigador do GoLP, o “lado humano da investigação” revela uma dimensão que “raramente chega ao público externo”. “Espero que a Stefany consiga captar o entusiasmo de fazer ciência e mostrar o ambiente de um grupo onde convivem experiências, tecnologia, simulações e teoria”. Mais do que os resultados, acrescenta, interessa-lhe que a residência consiga transmitir “porque é que a ciência continua a ser uma fronteira por descobrir”.
Essa proximidade entre investigadores e jornalistas é, na sua perspetiva, essencial para aproximar a investigação da sociedade. “Os jornalistas ajudam-nos a traduzir temas complexos e a mostrar que a investigação fundamental não vive isolada dos problemas do mundo”, acrescenta Luís Oliveira e Silva. “No caso da fusão nuclear, estamos perante um desafio que pode transformar a forma como produzimos energia e, ao mesmo tempo, ajudar-nos a compreender como brilham as estrelas”.
Natural da Colômbia, Stefany Hernández assume chegar ao Técnico com um forte “sentido de responsabilidade”. O objetivo, diz, passa por “transmitir, com rigor, o significado da investigação para a sociedade e dar a conhecer a dedicação dos investigadores e de toda a equipa”, naquela que será a sua primeira experiência de jornalismo imersivo “num país completamente novo”.
Durante os próximos meses, “Domar a luz” [do inglês Taming the light] será a imagem escolhida por Stefany Hernández para dar nome ao projeto que a trouxe ao Técnico. Entre lasers, simulações e perguntas ainda sem resposta, haverá mais um olhar dentro do laboratório. Não para fazer ciência, mas para contar a história de quem a faz todos os dias. Porque há histórias que não cabem num artigo científico: precisam de tempo, de escuta e de alguém disposto a contá-las.
Criado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC), o FRONTIERS Science Journalism in Residency Programme promove residências de jornalistas em instituições de investigação europeias, proporcionando condições para a produção de reportagens aprofundadas sobre ciência de fronteira. Nesta última edição, o Técnico integra o grupo restrito de oito instituições europeias selecionadas para acolher jornalistas em residência.