Num momento decisivo para a implementação da neutralidade climática nas cidades europeias, Paulo Ferrão, professor catedrático do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, e investigador no Centro de Estudos em Inovação, Tecnologia e Políticas de Desenvolvimento (IN+), foi nomeado presidente do Conselho da Missão Cidades (do inglês Cities Mission Board) pela Comissão Europeia, com efeitos imediatos. O órgão integra a estrutura de governação da Missão Europeia “100 Climate-Neutral and Smart Cities by 2030”, enquadrada no programa Horizonte Europa.
A nomeação ocorre numa fase em que mais de uma centena de cidades já obteve o ‘selo da Missão’ após a apresentação dos respetivos Contratos Climáticos para a Cidade. “Isso significa que assumiram o objetivo político da neutralidade climática, definiram medidas para o atingir e prepararam planos de financiamento”, afirma o docente. Apesar deste progresso, identifica constrangimentos estruturais: “Continuam a esbarrar em limites que não controlam, sobretudo nas regras de financiamento e na dificuldade em mobilizar investimento à escala necessária”.
Para o novo presidente desse órgão consultivo, que integra desde 2022, a ‘Missão Cidades’ evidenciou “um teste ao sistema”, demonstrando que a “ambição local existe, mas que o enquadramento ainda não está ajustado à velocidade da transição climática”. Neste contexto, considera que o papel do Conselho passa por reforçar a articulação entre níveis de decisão, “desde a política europeia até à realidade de quem implementa no terreno”, sublinhando que “investir nas cidades é uma oportunidade para promover competitividade, autonomia energética e qualidade de vida na Europa”.
“A prioridade principal será transformar os planos que já existem em investimento real e em projetos concretos”, afirma Paulo Ferrão. Para tal, defende a criação de condições que permitam às “cidades investir de forma estável e previsível”, bem como uma maior coerência entre instrumentos financeiros e objetivos políticos.
“Há aqui uma oportunidade muito clara para as instituições portuguesas contribuírem com conhecimento, capacidade de inovação e experiência em projetos concretos”, complementa, sublinhando que “a transição climática nas cidades é cada vez mais uma área onde a ligação entre ciência, tecnologia e políticas públicas faz a diferença”.
O Técnico tem desenvolvido trabalho nesta área através do Centro de Estudos em Inovação, Tecnologia e Políticas de Desenvolvimento (IN+), unidade de investigação associada à Escola e presidida por Paulo Ferrão, que assegura o secretariado técnico da rede ‘Cidades pelo Clima’. Esta rede reúne 22 cidades e regiões, incluindo Guimarães, Lisboa e Porto, promovendo a cooperação e a partilha de soluções no âmbito da neutralidade climática.
O contributo do Técnico/IN+ inclui a modelação de sistemas urbanos com recurso a digital twins (réplicas digitais de sistemas físicos que permitem simular, testar e otimizar cenários em ambiente virtual), nomeadamente ao nível do consumo energético em edifícios e da mobilidade, o desenvolvimento de ferramentas de apoio à decisão para avaliação custo-benefício de medidas e na formação de técnicos municipais.
“A capacidade de demonstrar soluções em contexto real é hoje um dos contributos mais relevantes que uma universidade pode oferecer, envolvendo estudantes, docentes e investigadores de diferentes áreas científicas, num esforço comum de transformação”, remata, defendendo o reforço do compromisso institucional. “É preciso intensificar o esforço interno para dar o exemplo”.
A confirmação no cargo assegura continuidade na orientação estratégica deste órgão num período determinante para o cumprimento das metas estabelecidas para 2030 e para a consolidação do objetivo europeu de neutralidade climática até 2050.