Ciência e Tecnologia

Investigador do Técnico distinguido no Programa Gilead Génese com projeto na área da oncologia personalizada

Projeto liderado por Nuno Bernardes procura expandir células tumorais circulantes em laboratório para apoiar decisões terapêuticas na oncologia personalizada.

No sangue de um doente com cancro podem circular células capazes de originar novas metástases. São raras e difíceis de estudar em laboratório. Perceber como crescem e como reagem às terapias exige ultrapassar um desafio central da investigação biomédica: conseguir expandi-las fora do organismo. Este é o ponto de partida do projeto liderado por Nuno Bernardes, docente e investigador do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, distinguido na 11.ª edição do  Programa Gilead Génese, a 11 de março de 2026. A iniciativa reconhece projetos inovadores nas áreas da investigação e da intervenção comunitária em saúde em Portugal.

“As células tumorais circulantes são células cancerígenas que conseguiram ultrapassar barreiras naturais dos tecidos de origem e chegar à corrente sanguínea”, explica Nuno Bernardes. “Estas células constituem potenciais sementes para o desenvolvimento de nódulos metastáticos em órgãos distantes e são muito importantes para perceber os mecanismos de formação destas metástases”.

O projeto premiado, RAPID-CTCs – “Maximizing the ex vivo expansion of circulating tumor cells with agitation-based platforms towards personalized oncology”, é desenvolvido no Instituto de Bioengenharia e Biociências (IBB), unidade de investigação associada ao Técnico. O trabalho centra-se no crescimento em laboratório de células tumorais circulantes, procurando aprofundar o conhecimento sobre a progressão da doença e apoiar o desenvolvimento de abordagens de oncologia personalizada.

Além do seu papel na progressão da doença, “o perfil biológico das células tumorais [que estão em circulação em cada doente] pode dar pistas muito importantes para definir qual a melhor abordagem terapêutica para cada doente em particular”, refere o investigador. Este conhecimento pode ajudar a “evitar tratamentos com menor probabilidade de sucesso e com potenciais efeitos adversos, como acontece frequentemente com algumas quimioterapias”, acrescenta.

Trabalhar com estas células apresenta, contudo, dificuldades técnicas significativas. Isoladas a partir de amostras de sangue periférico, surgem em números muito reduzidos. “Com tão poucas células à partida é muito difícil fazê-las crescer em laboratório até se obter uma quantidade suficiente para realizar estudos de resistência a fármacos que se possam depois transpor, em tempo útil, para a decisão sobre qual a melhor abordagem terapêutica para cada doente”, esclarece. 

Para responder a este desafio, o projeto RAPID-CTCs testa novas estratégias de cultura celular. “Queremos explorar de que maneira a utilização de plataformas baseadas em agitação, com maior controlo sobre as variáveis que condicionam o crescimento destas células, pode permitir obter mais rapidamente células suficientes para estudos terapêuticos”, afirma o investigador. Esta abordagem contrasta com muitos estudos existentes, que recorrem a modelos animais e exigem períodos mais prolongados para obter um número adequado de células.

Para Nuno Bernardes, a distinção reforça o trabalho desenvolvido no Técnico na área da bioengenharia aplicada à saúde. “Neste projeto, pretendemos alargar este know-how às células tumorais circulantes de cancros da mama”, menciona. Ultrapassar a dificuldade de expandir estas células em laboratório é um passo essencial para explorar o seu potencial clínico. “Esperamos que no futuro se possam desenhar abordagens terapêuticas mais eficazes com base nos dados obtidos através da expansão otimizada destas células”.

À 11.ª edição do Programa Gilead Génese candidataram-se 47 projetos nacionais, dos quais 26 na área da investigação e 21 na área da intervenção comunitária. Destas candidaturas, foram selecionados 10 projetos – quatro de investigação e seis de intervenção comunitária – num total de 300 mil euros de financiamento para apoiar o desenvolvimento de iniciativas nas áreas do VIH, das hepatites virais crónicas e da oncologia. “Queremos continuar a ser um parceiro ativo da investigação e da comunidade, contribuindo para um ecossistema de saúde mais equitativo, inovador e centrado nas pessoas, hoje e no futuro”, afirma María Río, vice-presidente e diretora-geral da Gilead Espanha e Portugal.