Ciência e Tecnologia

Investigadores do Técnico contribuem para publicação na Science sobre novos materiais que desafiam um princípio da electroquímica

Estudo publicado na revista Science descreve uma nova classe de eletrólitos que conduzem iões em estado sólido e líquido com a mesma eficácia.

Investigadores do Instituto Superior Técnico contribuem para a descoberta e caracterização de uma nova família de materiais orgânicos capazes de conduzir iões no estado sólido com a mesma eficácia observada no estado líquido. A investigação, publicada na revista Science a 18 de dezembro de 2025, apresenta o conceito de eletrólitos independentes do estado (SIEs, state-independent electrolytes), um resultado que contraria um princípio assumido da electroquímica.

José Nuno Canongia Lopes, Karina Shimizu e Adilson Freitas, docentes do Departamento de Engenharia Química (DEQ) do Técnico e investigadores do Centro de Química Estrutural (CQE), integraram a equipa internacional responsável pela identificação e compreensão dos mecanismos de transporte iónico (corrente elétrica) destes novos materiais. Em sistemas convencionais, a passagem do estado líquido para o sólido conduz a uma diminuição acentuada da mobilidade iónica. Nos SIEs agora descritos, essa limitação não se verifica: a condutividade mantém-se praticamente constante nos estados líquido, de cristal líquido e sólido.

Os materiais desenvolvidos assentam numa arquitetura molecular específica, composta por um “centro rígido em forma de disco e longas cadeias laterais flexíveis”, explica José Nuno Lopes. Esta organização impede a formação de ligações fortes entre iões positivos e negativos, permitindo que os aniões se desloquem ao longo de estruturas sólidas organizadas em colunas.

Ao longo de dois meses, a contribuição da equipa do Técnico centrou‑se na modelação e simulação molecular do sistema, uma componente essencial para compreender o fenómeno observado experimentalmente. “Desenvolvemos um campo de forças atomístico (um conjunto de funções e parâmetros que descrevem as interações no sistema e permitem simular o seu comportamento), sistemático e coerente, capaz de descrever todas as interações do sistema e de ser usado em simulações de Dinâmica Molecular”, refere Karina Shimizu. A inexistência de dados prévios na literatura sobre estes materiais obrigou à validação do modelo através de sistemas cristalinos mais simples, estruturalmente análogos.

As simulações permitiram esclarecer uma questão central colocada pelos parceiros experimentais: os locais de interação preferenciais entre os aniões cloreto e os grandes catiões orgânicos. “Percebemos que os aniões permanecem a maior parte do tempo na periferia dos discos centrais das moléculas, e não junto às cadeias laterais”, descreve José Nuno Lopes. Simulações adicionais, realizadas na presença de um campo elétrico externo, revelaram que “a velocidade média dos iões não é afetada pela orientação do campo relativamente à orientação do cristal”, o que ajuda a explicar a continuidade do transporte iónico durante as transições de fase.

Para o investigador do Técnico, a aceitação do trabalho na revista Science resulta do carácter disruptivo da descoberta. “Não basta conceber, sintetizar e caracterizar um novo material – é necessário demonstrar que ele responde de forma cabal a um desafio atual e derruba uma limitação científica previamente assumida”, afirma, referindo-se à ideia amplamente “aceite de que a solidificação implica necessariamente uma perda de condutividade elétrica”.

A descoberta reforça as linhas de investigação do Técnico na área dos líquidos iónicos e materiais funcionais e abre novas oportunidades de colaboração internacional. A cooperação com a Universidade de Oxford mantém-se ativa, estando previstos novos trabalhos, e a equipa do Técnico foi ainda convidada a submeter um projeto ERC Synergy, em parceria com Oxford e o National Institute of Materials Science do Japão.

Os resultados agora publicados apontam para aplicações futuras em baterias de estado sólido mais seguras, sensores, dispositivos electrocrómicos e eletrónica flexível, contribuindo para o desenvolvimento de dispositivos mais eficientes e versáteis. Segundo Adilson Freitas, estas soluções poderão também passar pelo “desenvolvimento de dispositivos médicos de diferentes formatos e dimensões”, ao permitirem o “uso em forma sólida segura, sem perda de condutividade iónica”.

Este trabalho resulta de uma colaboração internacional que envolveu investigadores das Universidades de Oxford, York e Durham (Reino Unido), do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa (Portugal), da Universidade Halle-Wittenberg (Alemanha) e da Universidade de Química e Tecnologia de Praga (República Checa).