A paisagem de Sisimiut, na costa ocidental da Gronelândia, é marcada por terrenos rochosos e vegetação rasteira, onde o solo gelado esconde processos fundamentais para o equilíbrio ambiental do planeta. Foi neste cenário que, a 22 de agosto, investigadores do Instituto Superior Técnico iniciaram uma nova campanha científica no Ártico, integrada no projeto europeu ILLUQ, termo inuit que significa “parceiro”. O consórcio procura compreender de que forma o descongelamento do permafrost pode afetar ecossistemas e comunidades locais.
João Canário, professor do Técnico e investigador do Centro de Química Estrutural (CQE), regressou à região no âmbito do ILLUQ, depois de várias missões científicas no Ártico. “O principal objetivo é avaliar como a degradação do permafrost pode contribuir para a libertação de contaminantes para o ambiente e quais os impactos dessa libertação na flora, fauna e populações indígenas do Ártico”, explica.
No terreno, a equipa realiza colheitas de amostras de vegetação e efetua medições. “Embora esta seja a vertente em que a nossa equipa se encontra envolvida, o projeto abrange também outras componentes, nomeadamente estudos sobre a saúde das populações e os efeitos nas infraestruturas da região. Um dos pilares fundamentais do projeto é, igualmente, o envolvimento ativo de stakeholders e rightsholders”, acrescenta.
O trabalho centra-se em espécies vegetais com valor económico que crescem em áreas onde o permafrost está a degradar-se. Estas serão analisadas quanto à acumulação de metais como arsénio (As), cádmio (Cd), mercúrio (Hg) e chumbo (Pb) nos seus tecidos. “Pretendemos compreender de que forma estas plantas podem acumular contaminantes e como respondem, a nível bioquímico e fisiológico, ao aumento dessa contaminação”, refere o docente do Técnico.
As amostras recolhidas serão posteriormente estudadas em laboratório, recorrendo a metodologias avançadas. “Serão utilizadas técnicas state-of-the-art, incluindo incubações com isótopos estáveis e a sua análise por ICP-MS (técnica que mede elementos químicos em quantidades muito pequenas) de alta resolução, e ensaios ecotoxicológicos com base em biomarcadores, com vista a dar resposta sólida às questões científicas colocadas”, sublinha João Canário.

O projeto ILLUQ é coordenado em Portugal por João Canário, sendo o Técnico o único parceiro nacional. A experiência do investigador no Ártico inclui expedições sobre os efeitos do aquecimento global em solos e águas, a liderança de um grupo de trabalho terrestre e a participação em estudos sobre os impactos ambientais da degradação de solos permanentemente gelados, reforçando o espírito de parceria que dá nome ao projeto.
Além da coordenação nacional, participam na campanha Rute Cesário, investigadora do Centro de Química Estrutural (CQE), Mário Dias, doutorando em Engenharia do Ambiente, e Vasco Cardoso, estudante de Mestrado em Molecular Science and Engineering do Técnico.
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