A conservação dos alimentos e a redução do impacto ambiental dos materiais que os protegem colocaram as embalagens alimentares no foco da investigação científica e tecnológica. Exemplo disso é o projeto europeu Bio4Pak, que conta com a participação de investigadores do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, dedicados ao desenvolvimento de embalagens de base biológica, biodegradáveis e inspiradas em sistemas naturais, com aplicação na indústria alimentar.
“O vector principal da preservação alimentar não está virado para o material que envolve o alimento, mas assente noutras premissas a jusante, como os procedimentos de manipulação das carcaças dos animais ou a conservação a baixa temperatura”, explica Nuno Mira, professor do Técnico, investigador do Instituto de Bioengenharia e Biociências (iBB) e investigador principal do projeto. “O plástico hoje usado acaba por servir apenas como material isolante. O que pretendemos desenvolver será um material que é também ‘sentinela’ e atuará se disso existir necessidade”. No projeto participam também Ana Azevedo e Jorge Leitão, também professores do Técnico e investigadores do iBB.
Financiado pelo programa EIC Pathfinder e coordenado pela University of Lodz (Polónia), o projeto tem como objetivo desenvolver embalagens inteligentes que mantenham as funções associadas aos plásticos convencionais, assegurando simultaneamente biodegradabilidade e sustentabilidade ao longo do ciclo de vida. As soluções em estudo baseiam-se em polímeros de origem biológica e em estratégias de design orientadas para a integração nos sistemas existentes de gestão de resíduos.
Entre as linhas de investigação do Bio4Pak está a utilização de bacteriófagos como agentes antimicrobianos em embalagens alimentares. O projeto explora um sistema de libertação, designado PhagTec, que permite a ativação de fagos na presença de determinados agentes patogénicos, com o “objetivo de reduzir a contaminação bacteriana e prolongar a conservação dos alimentos”. Esta abordagem é particularmente relevante em contextos como o consumo de carne de aves, onde microrganismos como Salmonella, Campylobacter e Listeria “representam desafios para a segurança alimentar e contribuem para o desperdício alimentar”.
“A construção de um material mais amigo do ambiente, obtido de forma ambientalmente sustentável e que pode ser reciclado de forma sustentável, abre um vetor de circularidade essencial para esta indústria”, sublinha Nuno Mira, apontando a possibilidade de expansão futura a outros produtos e materiais com características semelhantes. As soluções em desenvolvimento procuram articular desempenho técnico, segurança alimentar e sustentabilidade ambiental, incluindo a possibilidade de compostagem total dos materiais.
O Bio4Pak articula-se com linhas de investigação já consolidadas no iBB, com foco na ligação entre conhecimento fundamental em ciências biológicas e aplicação prática. “Trabalhamos há muito tempo para que o conhecimento na área das ciências biológicas e da microbiologia molecular encontre aplicações no dia-a-dia e possa ser usado para desenhar soluções inteligentes que respondem a problemas reais”, afirma o investigador, referindo o projeto como exemplo desta abordagem.
Além da instituição coordenadora, o consórcio integra a University of Gdańsk, a Wrocław University of Science and Technology, o Spanish National Research Council (CSIC) (Espanha), a TalTech – Tallinn University of Technology (Estónia) e a Hasselt University (Bélgica), reunindo especialistas nas áreas da agricultura, da indústria, da avaliação do ciclo de vida, do enquadramento regulatório e da tecnologia de fagos, num esforço de colaboração científica a nível europeu.