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Técnico apadrinha grau Doutor Honoris Causa a Ricardo Galvão, cientista e ‘homem de causas’ do Brasil

No mesmo dia, o professor e investigador conduziu uma IST Distinguished Lecture intitulada “Amazônia e a Atual Política Ambiental Brasileira”.

“Na qualidade de reitor, confiro o grau Doutor Honoris Causa, pela Universidade de Lisboa, ao professor Ricardo Galvão”. Após estas palavras de Luís Ferreira, proferidas na manhã de 4 de dezembro, o Salão Nobre do Instituto Superior Técnico irrompeu em aplausos, numa ovação de pé que se estendeu ao longo de um minuto inteiro.

Será uma conquista a acrescentar a muitas outras, para Ricardo Galvão. Atualmente, o cientista brasileiro preside o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e é membro da Academia Brasileira de Ciências. Na sua carreira de investigação, dedicou-se principalmente à área de plasmas e fusão nuclear e esteve envolvido na construção do primeiro tokamak (dispositivo usado na investigação nestas áreas científicas) da América Latina. Presidiu a Sociedade Brasileira de Física (2013-2016) e dirigiu o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (2005-2012) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE, 2016-2019), órgão equivalente a uma agência espacial brasileira. Este seu último mandato teve um fim precoce com uma demissão ordenada pelo então presidente do Brasil, após o INPE publicar dados que evidenciavam um aumento no ritmo da desflorestação amazónica nesse ano. Não obstante a pressão a que foi submetido, o cientista manteve a sua defesa do rigor dos resultados, relembrando os princípios de intransigência que regem a atividade científica.

Na intervenção que deu início à cerimónia solene, Rogério Colaço, presidente do Técnico, relembrou que “é necessária coragem para defendermos os valores em que acreditamos” e que “o professor Ricardo Galvão é um exemplo dessa coragem”. “Tem um percurso de vida que nos inspira a todos”, acrescentou. A declaração viria a ser justificada nos vinte minutos seguintes, durante os quais Carlos Varandas, antigo professor do Técnico e colega de Ricardo Galvão há mais de 40 anos, enunciou as conquistas académicas e profissionais do investigador, uma “tarefa bem difícil” de fazer na moldura temporal disponível, acrescentou. Terminou o discurso de louvor com a oficialização do pedido de atribuição do título Doutor Honoris Causa.

Minutos depois, e ostentando já a medalha referente ao grau, Ricardo Galvão saudou os presentes e a memória de colegas de investigação. A ligação com o Técnico, uma instituição que referiu ter “enorme prestígio internacional na área de física de plasmas”, remonta a 1982. Nesse ano, por ocasião do primeiro Latin-American Workshop on Plasma Physics (Workshop Latino-Americano em Física de Plasmas), conheceu alguns docentes da Escola – um destes, Carlos Varandas, viria a proferir o seu discurso laudatório 41 anos depois, nesta cerimónia.

Na sua intervenção, Ricardo Galvão realçou pontos-chave do seu percurso científico, incluindo várias colaborações entre o Brasil e Portugal. No que concerne a intercâmbios com o Técnico, destacou as colaborações entre a Universidade de São Paulo e o Centro de Fusão Nuclear e, mais tarde, o Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN). Em declarações feitas mais tarde nesse dia, o investigador reiterou que sempre considerou “importantíssima a colaboração entre Brasil e Portugal na ciência e tecnologia”.

A Universidade de Lisboa atribui o título de Doutor Honoris Causa a “personalidades eminentes, nacionais ou estrangeiras, que se tenham distinguido na atividade académica, científica, profissional, cultural, artística, cívica ou política, ou que hajam prestado altos serviços à Universidade, ao País ou à Humanidade”.


IST Distinguished Lecture – “Amazônia e a Atual Política Ambiental Brasileira”

Tendo recebido a distinção ainda de manhã, Ricardo Galvão retribuiu o gesto no próprio dia – pelas 15h tinha início a sua IST Distinguished Lecture, intitulada “Amazônia e a Atual Política Ambiental Brasileira”, perante uma plateia que preencheu o Auditório Abreu Faro, no Complexo Interdisciplinar do campus Alameda.

“De uma certa forma, sinto parte da minha alma ligada ao Técnico pelos tempos que passei e os bons amigos que criei”, partilhou o cientista no início da apresentação. Ao longo da restante hora, Ricardo Galvão elucidou os presentes com informação sobre a Amazónia, uma área do planeta que é frequentemente associada apenas ao Brasil, mas que se estende pelo território de nove países designados ‘pan-amazónicos’. Para além de abordar o papel da floresta amazónica na manutenção do equilíbrio ecológico e ambiental do planeta, o cientista relembrou os povos indígenas que nela habitam e a sua relação com esta.

A segunda parte da palestra focou-se na problemática da desflorestação e na evolução da sua magnitude ao longo dos anos. Através de dados recolhidos por projetos de monitorização, Ricardo Galvão enfatizou os efeitos negativos da mudança de política ambiental do governo do Brasil entre 2019 e 2022 e apresentou iniciativas e sistemas para a prevenção do abate ilegal de árvores e da ocupação de territórios amazónicos.

“Gostaria de ter mais instituições portuguesas – em particular o Técnico – a trabalhar junto de investigadores brasileiros contra problemas relevantes para a Amazónia”, afirmou o investigador à saída do auditório. Relembrando os 30 milhões de habitantes daquela área, Ricardo Galvão sublinhou o difícil acesso e as dificuldades logísticas como obstáculos que podem ser enfrentados por essa cooperação científica. “Hoje em dia, com a produção de energia solar e, até, a possibilidade de internet por satélite, é possível estudar grupos localizados e os seus problemas específicos”, acrescentou. Numa mensagem aos colegas portugueses, o cientista instigou ao “abrir de olhos para os problemas científicos na Amazónia” e para “procurarem os seus parceiros mais convenientes no Brasil”.