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Alumna do Técnico vence Prémio André Jordan 2020

Khadjia Benis contribuiu através da tese de doutoramento premiada para o desenvolvimento de um quadro metodológico inovador de avaliação da sustentabilidade ambiental e económica da Agricultura Integrada em Edifícios (AIE).

Khadjia Benis, antiga aluna do Técnico, foi a vencedora da 6.ª edição do Prémio André Jordan na categoria de “Doutoramentos / Artigos Científicos”. O galardão distinguiu a tese de doutoramento desenvolvido no âmbito do programa MIT Portugal em Sistemas Sustentáveis de Energia, orientada pelo professor Paulo Ferrão, docente do Departamento de Engenharia Mecânica (DEM), e desenvolvida no Centro de Investigação do Técnico, o IN+. Ao longo dos 4 anos de doutoramento, a antiga aluna debruçou-se sobre um tema de investigação emergente: a Agricultura Integrada em Edifícios (AIE), que consiste na implementação de cultivos em sistemas hidropónicos de alto rendimento em edifícios.

“É uma grande honra ter o reconhecimento do prémio André Jordan. Um prémio que tem um papel fundamental na divulgação e na criação de pontes entre o mundo da investigação e o mercado, e que abre novos horizontes na área do imobiliário”, afirma Khadjia Benis.  A alumna partilha o reconhecimento com o seu orientador o professor Paulo Ferrão e destaca a “sorte de fazer uma parte da investigação no MIT, e de trabalhar com um dos maiores peritos em modelação ambiental das cidades, o professor Christoph Reinhart”, adiciona.

O trabalho de Khadjia Benis contribuiu para o desenvolvimento de um quadro metodológico inovador de avaliação da sustentabilidade ambiental e económica da AIE, para apoiar planeadores urbanos e decisores políticos na sua integração em contextos urbanos. “A principal contribuição deste trabalho consistiu no desenvolvimento de uma ferramenta de simulação, que permite aprimorar o processo de tomada de decisão dos municípios e outros stakeholders na implementação em larga escala de sistemas AIE em contextos urbanos”, explica Khadjia Benis. “Integrada num ambiente de Desenho Assistido por Computador (CAD, na sigla em inglês), a ferramenta permite simular cenários alternativos em qualquer área urbana, a fim de determinar a solução AIE ambiental e economicamente mais benéfica para um determinado bairro”, adiciona a antiga aluna. Esta foi a primeira ferramenta de simulação urbana que integra esta funcionalidade, o que evidencia o carácter inovador do projeto de Khadjia Benis.

O protótipo foi aplicado à produção de tomate em três cenários de AIE na cidade de Lisboa. O potencial de aquecimento global relacionado ao uso de água, ao transporte, e à energia operacional desses três casos foi comparado ao potencial de aquecimento global da cadeia de abastecimento atualmente existente para o tomate. “Para testar e comparar diferentes condições climáticas, tipologias de sistemas de AIE, e escalas metropolitanas, a ferramenta foi posteriormente aplicada a mais casos de estudo localizados nas cidades de Lisboa, Singapura, Paris e Nova Iorque”, detalha, de seguida, a autora do trabalho.

De acordo com a antiga aluna, os resultados obtidos através da aplicação da ferramenta aos vários cenários lisboetas, mostraram que as estufas de cobertura com produção hidropónica de alto rendimento poderão constituir uma alternativa mais sustentável para o meio ambiente em comparação com a cadeia de abastecimento atualmente existente. “Nas cidades densas de hoje, onde o solo é escasso e a exposição direta à luz solar é um bem valioso, as coberturas dos edifícios constituem vastas áreas sub-exploradas”, salienta Khadjia Benis. “Particularmente com as crescentes preocupações ambientais ligadas às cidades, o potencial de transformar essas áreas em espaços produtivos – seja para cultivo de alimentos ou para geração de energia – surgiu como uma opção viável nos últimos anos”, aponta ainda.

Detendo uma abordagem holística e transdisciplinar, este projeto reuniu métodos e ferramentas de avaliação de ecologia industrial, planeamento urbano, e modelação ambiental, tais como Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), Simulação do Desempenho Energético das Edificações a Nível Urbano (UBEM, do inglês Urban Building Energy Modeling), Análise de Custo-Benefício (ACB) e Desenho Urbano Paramétrico. Khadjia Benis acredita que “a componente transdisciplinar é central em qualquer projeto sobre sustentabilidade”. “Além disso, acho que o tema abordado na minha tese-as cadeias de abastecimento das cidades- é uma problemática atual, e o contexto pandémico em que hoje nos encontramos torna ainda mais urgente pensar nestas soluções”, vinca a alumna.

A paixão por Lisboa e o programa de doutoramento que lhe abriu as portas do mundo

Khadjia Benis é natural de Marrocos e chegou a Portugal em 2010 para fazer o segundo ano do seu mestrado Erasmus-Mundus em “Estudos Urbanos nas Regiões Mediterrânicas” na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa (FAUL). Um ano foi o necessário para se apaixonar por Lisboa e decidir ficar um pouco mais e reforçar a sua formação com uma pós-graduação na FAUL. Posteriormente, e enquanto procurava um programa de doutoramento relacionado com a sustentabilidade dos edifícios e das cidades, descobriria -através de um docente do Técnico que também dava aulas na FAUL – o programa MIT Portugal em Sistemas Sustentáveis de Energia. “Pareceu-me ser a solução perfeita devido ao enfoque no Ambiente Construído Sustentável e ao seu âmbito internacional, o que me permitiria desenvolver uma investigação de impacto no campo da sustentabilidade urbana”, recorda.  “Além disso, o programa permitir-me-ia conduzir parte da minha investigação no MIT”, acrescenta, confessando que não pensou duas vezes na sua candidatura ao perceber todas estas mais-valias.

A vencedora do Prémio André Jordan revela que este programa de doutoramento lhe permitiu aprender e investigar num “ambiente internacional e multidisciplinar estimulante”. “Durante o primeiro ano do doutoramento tive aulas de engenharia e economia e trabalhei com colegas de várias origens. Tive a oportunidade de explorar diferentes tópicos no campo da energia e definir melhor o âmbito da minha tese de doutoramento”, declara.

A alumna candidatou-se também a uma bolsa mista da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), ao abrigo da qual integrou o Sustainable Design Lab, no Departamento de Arquitetura do MIT, onde trabalharia com o professor Christoph Reinhart. “Depois de acabar a tese, ainda voltei lá como postdoc e transformei o meu protótipo num plugin, o HARVEST, do qual já lançamos duas versões. Tive a oportunidade de aprofundar e divulgar esta investigação através de um seminário de investigação que lecionei no MIT no ano passado –“Food for Thought”– e desde então tenho trabalhado com estudantes que aplicaram o HARVEST em várias cidades do mundo, desde Chicago até Munich ou Riyadh”, relata a antiga aluna.

Depois de 3 anos no MIT, onde investigou e deu aulas na área em que desenvolveu o seu doutoramento, Khadjia Benis voltou recentemente a Lisboa e integrou o C5Lab, onde faz investigação ainda na área da sustentabilidade dos edifícios, mas desta vez em termos de materiais de construção.

6.ª edição do Premio André Jordan contou com 47 candidaturas

Organizado pela Confidencial Imobiliário, desde 2010 que o Prémio André Jordan avalia em duas categorias distintas, investigações desenvolvidas no contexto dos projetos de doutoramento e de mestrado em diversas áreas temáticas que abordem questões relacionadas com as cidades, turismo e imobiliário. Este prémio promove igualmente a transmissão dos resultados desta investigação pelos profissionais do mercado. Realizado numa cadência bienal, o galardão contou este ano com um recorde de 47 trabalhos candidatos.

O júri, presidido pelo professor Augusto Mateus, é composto por distintas personalidades do meio académico e do meio empresarial. A entrega dos galardões aos vencedores desta edição acontece no próximo dia 20 de novembro. Pode inscrever-se para assistir a esta sessão através deste link.

Esta é a terceira vez consecutiva que antigos alunos do Técnico são distinguidos por este galardão. Na 5.ª edição do prémio André Jordan, João Appleton antigo aluno de doutoramento e professor convidado do Técnico, foi também o vencedor da categoria de “Doutoramentos / Artigos Científicos”. Já em 2016, a alumna Beatriz Cabral de Melo foi a vencedora da categoria de “Dissertações de Mestrado”.