Projetos em desenvolvimento, conversas cruzadas e novas parcerias em perspetiva marcaram o encontro que, a 7 de abril de 2026, reuniu investigadores, empresas, startups e parceiros internacionais em torno de oportunidades de colaboração em áreas emergentes da engenharia e tecnologia. No âmbito do projeto europeu Unite! Widening, a iniciativa contou com a participação da comunidade do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, num momento orientado para a “partilha de conhecimento” e para a “construção de novas parcerias científicas e tecnológicas”.
O arranque do dia fez-se com um olhar sobre o território digital, onde algoritmos, dados e sistemas autónomos moldam novas formas de investigar e de intervir na sociedade. A discussão percorreu o avanço dos modelos de linguagem de grande escala, a sua influência na análise de dados e a articulação com áreas como a robótica e a Inteligência Artificial, num contexto em que a cooperação entre universidades e empresas foi apontada como “fator determinante para acelerar a inovação”.
Neste enquadramento, José Franca, docente do Técnico, trouxe uma leitura construída ao longo de várias décadas. “Tínhamos talento e conhecimento, mas faltava indústria que os absorvesse. Esse desequilíbrio obrigou-nos a agir”, afirmou, recordando o percurso ligado à criação de startups desde os anos 90. Ao revisitar essa experiência, sublinhou a importância de “modelos assentes em propriedade intelectual, onde a reutilização do conhecimento permite crescer para além das limitações iniciais”. Para o docente, o empreendedorismo surge como “consequência de alinhar capacidades com oportunidades reais”.
Da escala digital à complexidade biológica
A tarde trouxe um novo foco, centrado nas tecnologias aplicadas à saúde, onde a engenharia enfrenta desafios à escala do corpo humano. A biotecnologia foi abordada a partir de diferentes perspetivas: desde biorreatores que recriam ambientes biológicos em laboratório aos materiais desenvolvidos para estimular a regeneração de tecidos, passando por sistemas experimentais, que permitem testar terapias em condições mais próximas da realidade clínica.
Neste contexto, João Carlos Silva, investigador do Instituto de Bioengenharia e Biociências (iBB), apresentou o projeto ‘Electrobone’, centrado na regeneração óssea. “A reparação de defeitos ósseos extensos continua a ser um desafio clínico significativo, com uma parte dos casos a não responder aos tratamentos convencionais”, explicou. O projeto propõe a combinação de estruturas tridimensionais eletrocondutivas com estimulação biofísica, criando condições mais próximas do ambiente natural do osso. “O objetivo passa por potenciar a regeneração através da integração de estímulos físicos e materiais avançados, num esforço que depende de colaboração multidisciplinar e internacional”.
Também nesta área, Gonçalo Machado Ribeiro, estudante distinguido na 9.ª edição do programa Lab2Market do Técnico, apresentou o projeto “FLASHGuard”, dedicado à radioterapia ultrarrápida. “A administração de doses de radiação a uma velocidade muito superior à convencional mostra potencial para proteger tecidos saudáveis, mas a sua aplicação clínica ainda depende de avanços tecnológicos”, referiu, destacando que entre os principais desafios está a monitorização em tempo real. “Sem dispositivos capazes de medir e controlar o feixe com precisão durante o tratamento, a transição para a prática clínica permanece limitada”. É neste ponto que identifica a “importância de trabalhar em conjunto com a indústria, como forma de ultrapassar barreiras e aproximar a tecnologia da aplicação clínica”.
Entre apresentações e sessões de pitch, o ritmo intensificou-se com a partilha de projetos e ideias em desenvolvimento, culminando numa sessão dedicada a oportunidades de financiamento europeu e na assinatura de um Memorando de Entendimento (MoU) para a criação de uma comunidade de inovação aberta. “Este MoU assinala um passo importante para aproximar comunidades com competências distintas e reforçar a interdisciplinaridade, reunindo academia, instituições de I&D e empresas em torno de objetivos comuns”, afirmou Fátima Montemor. A docente do Técnico e coordenadora do projeto destacou ainda o programa Unite! Widening como um “catalisador para a criação de novas colaborações e o desenvolvimento de iniciativas conjuntas”.