Ciência e Tecnologia

Mário Figueiredo: “O mundo hoje é extremamente visual, estamos imersos em imagens”

É professor no Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores do Técnico, onde fez a Licenciatura, Mestrado e Doutoramento, antes da Agregação em 2004. Além disso, é investigador sénior do Instituto de Telecomunicações (IT), onde é coordenador da área científica Networks and Multimedia e líder do grupo Pattern and Image Analysis.

Porquê a Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, na altura de escolher?
Eu sempre tinha gostado de eletrónica, e também gostava de matemática… Na altura, o curso de Eletrotecnia tinha fama de ser um dos melhores para aprender Matemática e Física, com aplicações práticas. Na altura tinha a visão de um miúdo de 18 anos, e achava que a Matemática era demasiado teórica e desligada da realidade.

Alguma vez se arrependeu?
Nunca. Na verdade, quando estava a meio do curso, apareceu o curso de Física no Técnico e ainda ponderei bastante mudar, mas acabei por achar que não valia a pena. Hoje não me arrependo de não ter mudado, não faria sentido.

Trabalha nas áreas de processamento de sinais e imagens, otimização, reconhecimento de padrões e aprendizagem automática…
Sim. São coisas aparentemente bastante diferentes, em termos de aplicações. O processamento de imagens é pegar numa imagem e criar outra, com outro tipo de características. Já a aprendizagem automática é, de certa forma, tentar ensinar os computadores a tentarem resolver alguns problemas autonomamente.

Que tipo de problemas?
Por exemplo reconhecer se uma fotografia tem ou não uma cara. Ou olhar para uma imagem e perceber se essa imagem é dentro ou fora de casa… algo que para nós é trivial, para um computador não é fácil.

E a otimização?
A otimização é um ramo da matemática que se dedica a criar, desenvolver e analisar algoritmos para encontrar mínimos de coisas. Para ser o mais eficiente possível, o que tem aplicações em todos os outros problemas.

Por que é que essa área é tão relevante?
Agora, quando escrevo propostas de projetos, começo logo por dizer que hoje as pessoas fazem uploads de dezenas de milhões de fotografias para o Facebook. O mundo hoje é extremamente visual, estamos imersos em imagens, e portanto tudo o que tenha a ver com aquisição, processamento, transmissão, análise de imagens, são coisas extremamente relevantes. As grandes empresas estão todas em cima disso.

Em que altura decidiu virar-se para o estudo das imagens?
Muito cedo… o meu mestrado já é na área das imagens. Também sou fotógrafo amador, e portanto as coisas juntam-se, embora na verdade não tenham nada a ver.

Não?
São tudo imagens mas a abordagem é totalmente diferente. No meu trabalho uso ferramentas digitais, mas a fotografia é uma atividade estética, e é uma coisa totalmente diferente. Mas eu gosto das duas coisas. Gosto de imagens.

Este trabalho valeu-lhe a presença na lista do Highly Cited Researchers, divulgada em julho. O que significa para si esse reconhecimento?
Significa orgulho, claro, pelo reconhecimento do trabalho. É sinal que há pessoas a ler aquilo que fazemos. E o reconhecimento que dá mais gosto é o reconhecimento dos pares: das pessoas que trabalham na mesma área e conhecem as dificuldades do problema, que sabem analisar o que é ou não relevante.

É um dos únicos dois investigadores que trabalham em instituições portuguesas a integrar a lista. De certa forma isto há de ter algum impacto a nível nacional local e nacional…
Aparentemente contribuiu um pouco para a subida da Universidade de Lisboa no Ranking de Xangai, porque um dos indicadores é a quantidade de Highly Cited Researchers que existem em cada universidade. Para o Instituto de Telecomunicações também, claro, é mais uma medalha, um reconhecimento.

Além de ser investigador, é também professor, e disse numa entrevista que considera que o sangue de uma universidade são os seus estudantes de pós-graduação.
Nas universidades de topo esse é um dado adquirido, eles sabem que precisam de equipas de estudantes de doutoramento para trabalhar. Quem faz o trabalho, sempre com orientadores, são os estudantes de doutoramento, e daí o termo sangue: eles fluem, passam, entram e saem. Não ficam, é um fluxo de estudantes que vai deixando o seu trabalho, a sua inteligência e a sua contribuição.

O que significa a falta desses estudantes?
Sem estudantes de doutoramento de qualidade é impossível fazer investigação. É possível fazer em nichos, é possível fazer um bocadinho, mas não é possível ter um fluxo constante de trabalho e qualidade sem eles.

E como é o panorama aqui no IST?
Nos casos que eu conheço, não é famoso. Portugal está muito no fundo da escala, depois dos Estados Unidos, da Inglaterra, do resto da Europa, da Austrália. Por causa da língua, e por causa de muitas outras coisas…

O que podemos fazer para evitar isso?
Uma das coisas muito importantes é estar num lugar alto do ranking, é ser uma Universidade com prestígio internacional.

A fusão da Universidade Técnica com a Universidade de Lisboa vem ajudar?
Sim, penso que sim.